terça-feira, agosto 18, 2015

Criação

Feia e espontânea,
como as coisas
que não se preocupam
com o que são,
assim se deita
a musa inspiradora
em meu colchão.

Deita, mas não
me toca.
Me olha nos olhos,
boceja e ri.
Nua e despudorada,
rouba minha coberta,
abre-se em estrela,
me empurra fora da cama
até eu cair.

Me encolho no chão gelado,
faço de travesseiro o assoalho,
tremo feito um chocalho
- até a manhã surgir.

Levanta minha musa,
espreguiça o corpo inteiro,
bota sua blusa azul
e sai.
Dá bom dia ao porteiro,
devolve o troco mal contado
ao jornaleiro,
almoça, solta um arroto
e volta.

Passa a chave na porta,
liga o rádio, televisão
fuça na internet,
toma banho,
limpa os ouvidos com cotonete,
assovia uma canção

e morre,
sem me estender a mão.

sexta-feira, agosto 14, 2015

Poema dos canaviais*

Troquei o açúcar
dos teus lábios
pelo álcool
dos botecos.
Solidão: amarga
feito chorume.
Meu coração:
moído,
só o bagaço,
de tanto levar
petelecos.


* esse eu já tinha postado AQUI, em formato de tirinha.


sexta-feira, agosto 07, 2015

Quântica

Não sei quem
vi no palco
do auditório vazio:
Nelson de Oliveira
Teo Adorno
Valerio Oliveira
Luiz Bras.

Tanto fez!
Tanto faz.