terça-feira, agosto 25, 2015

Quem não faz versão deste do Drummond, bom sujeito não é ou Buda-dô

No meio do caminho,
bicudei uma pedra.
Bicudei uma pedra
no meio do caminho.

Nunca me esquecerei
de treta tão tretada.

Uma pedra bicudei
no caminho do meio.
Do meio, no caminho,
bicudei uma pedra.

terça-feira, agosto 18, 2015

Criação

Feia e espontânea,
como as coisas
que não se preocupam
com o que são,
assim se deita
a musa inspiradora
em meu colchão.

Deita, mas não
me toca.
Me olha nos olhos,
boceja e ri.
Nua e despudorada,
rouba minha coberta,
abre-se em estrela,
me empurra fora da cama
até eu cair.

Me encolho no chão gelado,
faço de travesseiro o assoalho,
tremo feito um chocalho
- até a manhã surgir.

Levanta minha musa,
espreguiça o corpo inteiro,
bota sua blusa azul
e sai.
Dá bom dia ao porteiro,
devolve o troco mal contado
ao jornaleiro,
almoça, solta um arroto
e volta.

Passa a chave na porta,
liga o rádio, televisão
fuça na internet,
toma banho,
limpa os ouvidos com cotonete,
assovia uma canção

e morre,
sem me estender a mão.

sexta-feira, agosto 14, 2015

Poema dos canaviais*

Troquei o açúcar
dos teus lábios
pelo álcool
dos botecos.
Solidão: amarga
feito chorume.
Meu coração:
moído,
só o bagaço,
de tanto levar
petelecos.


* esse eu já tinha postado AQUI, em formato de tirinha.


terça-feira, agosto 11, 2015

Segunda-feira

Um passarinho muito louco
pousou no beiral da janela
e nos deu bom dia.

Não piou e intuímos
ou imaginamos
que foi bom dia.
Disse as seis letras
espaçadas ao meio:
BOM DIA!

(Cremos mesmo
que fosse um texto
seria caixa-alta
e ponto de exclamação,
tamanha a euforia.)

Demos as costas
sem respostas
e fomos cuidar da vida.

sexta-feira, agosto 07, 2015

Quântica

Não sei quem
vi no palco
do auditório vazio:
Nelson de Oliveira
Teo Adorno
Valerio Oliveira
Luiz Bras.

Tanto fez!
Tanto faz.