quarta-feira, dezembro 26, 2012

Torrent

Numa esquina de Mordor,
J. R. R. Tolkien
esbarrou com um certo sujeito
barbudo e gordinho.
- Peter, filho de Jackson,
como vai? - perguntou o homem,
baforando seu cachimbo.
- Bem e o senhor?
- Também! Passeando por aí?
- Estamos em filmagem, senhor.
- Mesmo?
- Juro.
- Pois filmam o quê?
- Tropa de Elite 3:
A faca, a caveira e o saco-plástico.
- Interessante! Qual a trama?
- Depois que Sauron é deposto,
a disputa pelo controle
do morro recomeça.
E a esperança da Terra-Média
mais uma vez reside
no coração de um pequenino ser.
- Ótimo! Meu Frodo está de volta?
- Não, senhor.
"Falo de Tyrion, dos Lannister,
que sempre paga suas dívidas
e garantiu o patrocínio
pra gente rodar o filme em 3D."

terça-feira, dezembro 25, 2012

Os Filhos do Fim - Parte 1


     A luz volta a surgiu com o sol que se levanta à direita, no horizonte. As formas ganham relevo e, aos poucos, um ou outro pássaro sobrevivente começa a cantar. Mais um dia se inicia.
     Faz frio. Venta forte aqui no alto do edifício. Os companheiros encolhem-se debaixo das cobertas. As fogueiras acesas desde o início da noite não dão conta de espantar o incômodo. Ainda assim, todos dormem. Exceto eu.
     Avenida Paulista. Quem hoje é capaz de lhe reconhecer? Da beirada do prédio, observo o largo e profundo caminho de água em que você se transformou. Água salgada. Oriunda da terrível sequência de ondas imensas que se abateu sobre nós a arrasou as cidades mais próximas ao litoral. Hoje, apenas os andares mais altos dos edifícios mais elevados continuam sobre as águas.
     Do cume das antenas dos terraços é possível ampliar o horizonte e ter a dimensão do que São Paulo se tornou: um conjunto de pequenas ilhas de concreto separadas entre si por largas extensões do oceano. De onde estou, sei de cor, há 62 delas. Quantas, porém, existem além de meu raio de visão?
     Olho em direção ao meu lar, no Tatuapé, 11 km ao Leste, para onde não voltei desde 21 de dezembro do ano passado, dia em que a maldição abateu-se sobre o mundo. O peso das águas turvas do Atlântico enterrou minha casa para sempre no fundo do mar.
     Juan e Larissa deviam estar sentados no tapete na sala, brincando com qualquer bobagem, quando a tempestade do final dos tempos desabou sobre tudo. Stela provavelmente cozinhava o jantar quando o apocalipse se tornou realidade. Sofreram quando o momento chegou?
     Esta dúvida ainda hoje me aperta o coração. Morte digna. É o que toda pessoa de bem merece. Os três, no entanto, afogaram-se, tal como ratos de bueiros durante as enchentes.
     Deus, não! Sacudo a cabeça para afugentar tais pensamentos e manter a esperança. Talvez ainda seja possível...
     A luz da manhã já domina o céu. Um urubu a baixa altura cruza sobre minha cabeça e, a pouca distância, passa a voar em círculos. Meu coração bate forte. O dia começa bem.
     Uma segunda ave carniceira aproxima-se e imita a primeira. Logo, outras mais surgem. É preciso agir rápido. Abandono imediatamente meus desvarios e escalo com técnica a antena de nosso edifício-ilha. No alto, há um posto de observação instalado por nós. À frente, perto da região que um dia abrigou o Masp, um bando de aves pretas acumula-se em torno de uma carcaça imensa.
     Cretinos dos prédios vizinhos também notam a presença dos urubus e já preparam seus equipamentos. Estamos atrasados.
     - Acordem! Acordem, preguiçosos!
     Davi e Emanuel são os primeiros a levantar. Ao me verem descendo afobado a antena, sabem o que tem de ser feito e correm para a barca. O tumulto faz os demais também despertarem. Somos 13, ao todo. Nove homens e quatro mulheres.
     - Viu uma, Rafael?
     Não respondo. Perda de tempo. Agir, nestas horas, é melhor do que qualquer argumento. Além disso, dois grupos vizinhos e rivais já remam em direção aos urubus.

terça-feira, dezembro 18, 2012

Corneto de separação

"Taxa de divórcios cresce 45,6% em um ano"
- IBGE

Troco o doce do teu amor
por uma barra de cereal.
Dá de volta minhas meias,
cuecas velhas e as cerdas macias
de minha escova dental.

Teu tempo passou,
madurou tua fruta,
caiu do pé
e se espatifou no chão.

Meus pés querem estrada.
Cansei de rachar contigo
as contas
as plantas
(o ar carregado)
a pizza
a física
a privada.
Vou morar sozinho,
longe da tua lupa,
perto do Ipiranga,
pra gritar independência:
beber água no bico
ficar sem tirar o lixo
mijar e não baixar a tampa
comer pipoca na janta
atirar bituca no quintal do vizinho.

A vida é curta.
Não vou esperar
que somente a Morte
nos separe.