quinta-feira, julho 28, 2016

Jornalismo ou a arte de ser invisível

Em julho completo 11 anos de jornalismo, divididos praticamente em iguais metades entre redações de jornais impressos e assessorias de imprensa. Não cheguei sequer ao meio de minha trajetória profissional, mas, já foi tempo suficiente para tirar algumas conclusões. A maior delas é que o jornalismo é um exercício de muita paciência – principalmente porque a matéria-prima do trabalho depende 100% do outro.

Nas condições normais de temperatura e pressão, não se faz nada em jornalismo sem o outro*. Não dá para escrever uma linha. Eu não posso sentar na frente do teclado e destrinchar tudo o que sei sobre determinado fato/assunto apenas por saber, mesmo que isso se encaixe perfeitamente à matéria. De onde você tirou isso?, vai lhe perguntar o editor. E responder da minha cabeça não é uma opção agradável.

Geralmente quem decide seguir a carreira não tem essa noção. Eu, por exemplo, optei por ser jornalista por gostar de escrever. Só. Há os que amam esporte, os que adoram música, os que desejam aparecer na TV só por aparecer, os que se acham comunicativos e extrovertidos – e todos esses acabam encontrando no funil do jornalismo um aconchego às suas preferências.

Quando digo o outro me refiro na maioria das vezes à fonte de notícia, matéria-prima da profissão. Seja um entrevistado, uma coletiva, uma pesquisa, um flagra, um boletim de ocorrência, alguma coisa tem de embasar sua matéria. A produção está sempre condicionada a algo exterior e prévio. O trabalho jornalístico é algo invisível, que não termina em si mesmo. Se bem realizado, na verdade, ele simplesmente transparece feitos alheios. E o tempo/espaço do outro quase nunca são os mesmos que o seu.

Por exemplo: você, repórter de economia de um impresso (posto que ocupei por alguns anos), recebe assim que chega de manhã ao trabalho, em sua caixa de e-mail, aquela pesquisa linda sobre, sei lá, aumento na intenção de compra dos consumidores. Você analisa os dados, faz o lide (primeiro parágrafo de qualquer matéria), até consegue escrever mais outros dois parágrafos em 15 minutos, porém, precisa da opinião de um especialista para complementar o assunto. Mais o raio do economista só vai poder falar contigo às 16h. Paciência.

E quando a reportagem precisa de um personagem? Para quem não é do meio, trata-se daquele entrevistado que exemplifica o assunto do texto – quepersonifica a informação. Amigo, uma das coisas mais desesperadoras de uma redação de jornal é o relógio ir comendo as horas, a linha do deadline se aproximando e você sem ter arrumado o tal personagem! É mais uma vez você dependendo do outro para escrever duas ou três míseras linhas... Mas, onde está esse outro que não aparece? Paciência.

Em assessoria de imprensa a situação pode ficar ainda mais complicada. Caso não saiba do que se trata, permita-me a explicação: assessor de imprensa é o jornalista responsável por mediar o contato de determinado cliente com as redações. Nesse ramo, é bem possível que a quantidade de outros se multiplique, justamente pelo fato de seu trabalho estar no meio do caminho entre o cliente e o jornalista – novos terceiros sem os quais você não dá um passo, mesmo que a iniciativa de divulgar determinado assunto tenha vindo de você.

Portanto, meu caro, se o jornalismo lhe sinaliza como possível escolha de profissão, saiba que acima de qualquer preferência, paixão ou desejo pessoal, é preciso ter gosto, respeito e humildade pelo outro – o que, convenhamos, não é nada fácil. Sem ele você não trabalha.

*se você for um cronista, dá pra sentar e escrever o que vier na telha.

terça-feira, julho 12, 2016

A terceira (e última?) aventura de Carlos

Eu tinha aquele maldito sonho
de correr em câmera lenta.
Na infância, corria do cachorro em câmera lenta.
Na segunda série, corria do Edilson.
Corria de moleque que queria roubar minha bicicleta.

Nunca consegui de fato fugir
e sempre que chegava na iminência de ser pego,
acordava com taquicardia.

Aí um dia aprendi a correr
e ninguém nunca mais me pegou...
E nunca mais tive um sonho em câmera lenta.

Você me pergunta: mas, como aprendeu a correr?
Eu me abaixei e aprendi a correr
com os pés e as mãos... feito um lobo.

Frequentemente agora sonho
que estou correndo livre em alta velocidade
-- e os problemas tratados no sonho ficam para trás.

(A questão é que agora
meus dentes começaram a crescer
e não cabem mais na boca fechada.)

Aventura de segunda*

Cheguei do trabalho,
deitei na cama pra ler,
sono me deu.

"Vou dormir meia-horinha",
logo pensei.

Só agora acordei.
Resto da noite: phudeu!

* esse poema aconteceu ontem (11/07), segunda-feira.