quinta-feira, agosto 25, 2016

chão de praça

bituca
palito de dente
casca de mexerica
tampinha de garrafa
folhas secas

cocô de cachorro
de gato, de gente?
fila de formiga
santinho de vereador
jornal velho

água empoçada
copo plástico amassado
com resto de suco
de uva, de maça,
de morango, frutas vermelhas?

ou sangue?
comprovante bancário
arame retorcido
cacos de vidro
um pingente

restos de comida
arroz, feijão
carne não sei de que bicho
moscas-varejeiras
casquinha de sorvete

quinta-feira, agosto 18, 2016

Friagem

Olha, quem foi que trouxe todo esse frio? Impossível seguir assim. As canelas tremem, os joelhos quase batem um no outro e me derrubam, ao relento. Cada passo contra esse vento é um profeta abrindo um mar de gelo. Enrolo a manta velha em torno de minhas orelhas e oro. Sem resposta. Nenhum consolo. Falta muito – tanto, que não vale a pena continuar. Andar de volta já é distante, não tem jeito.

Paro e fico. 

Estatelado em campo aberto, embrulhado em mim mesmo. Os dentes a bater uns nos outros, fazendo minha caveira cantar. Não sei donde veio; sei, no entanto, que cedo não passa esse mau tempo. É massa pesada, que se abateve sobre o terreno. Cruzo as pernas, feito índio; corpo curvado em si mesmo. A grama seca e rala em que me sustento não demonstra vida. 

Repouso o rosto e o corpo ao chão.

Ventania passa por cima, acalmo-me. Presto atenção e ouço: a música sutil do miolo da terra – composta pelas verminoses, saúvas e bactérias. Pergunto se chegou a hora de me juntar a elas. Elas sussurram: “sim.” Mas, de dentro do peito, meu coração esmurra o solo e a cada batida responde: “não... não... não...” 

Levanto e sigo. 

Trôpego e capenga tal um morto vivo. Sei, contudo, que agora consigo.

Olimpíadas 2 - Salto com vara

Algum portal pruma dimensão surreal se abriu durante essa disputa do salto com vara. Salto com vara! -- que por si só já é uma coisa altamente (perdão pelo trocadilho) bizarra.

"Nunca antes na história" das Olimpíadas brotou tanto fato maluco numa prova de, sei lá, alguns minutos.

É japonês que derruba o sarrafo com a piroca; brasileiro quase anônimo que derrota campeão mundial do país que inventou a etiqueta; torcida alucinada excedendo -- para o bem e para o mal -- todos os limites; zueira never ends nas redes sociais do planeta; piadas de quinta série; choro copioso; citação a herói negro e tirano sanguinário nazista; mea culpa; puxão de orelha da "diretoria" olímpica na turma do fundão da arquibancada; jornalista que cita religião afrobrasileira... E agora finalmente a paz, mediada por lenda viva do esporte, entre o mais novo salvador da nação tupiniquim e o algoz que não falava com ele há um ano.

Phelps, Bolt, Marta, Neymar e o bezuntado de Tonga viraram todos coadjuvantes. Pudera.

Olimpíadas 1 - Futebol masculino

Gabigol puxa a camisa do goleiro na cara do juiz como se não fosse dar nada. Juiz marca falta sem bola e o Brasil perde uma boa chance de ataque. O panaca abre os braços e se queixa como se não tivesse feito nada.

Pouco depois, o mesmo jogador finge mto mal que sofreu pênalti, desaba na área e perde outra chance em troca de bancar o espertão.

Será que não percebe e ninguém o faz perceber que além de idiota, esse comportamento é burro, escroto e completamente incondizente com o que o Brasil (o país, não só a Seleção) precisa?