terça-feira, junho 25, 2013

Acidente de percurso

Na barreira de pneus
da curva Tamburello
você me abandonou.

De leve, nos tocamos na reta.
Perdi o controle,
você seguiu em frente
e acelerou.

Sequer me viu
rasgar a caixa de brita
e espatifar os dentes.

Acelerou e foi embora
pra vencer de vez a prova.

Erguer troféu pesado
no lugar do pódio mais elevado.

(Estourar champagne
sem mim
que lhe acompanhe.)

Restou-me o resto
do resto do resto.

Quebrado, sem pino fixo,
Juntaram-me os cacos,
enfiaram num saco
e jogaram no lixo.

segunda-feira, junho 10, 2013

Dia de Namorado

Tchau amor, beijo.
(beijo)
Tchau, bom trabalho.
Fica à vontade.
Tá.
Fecha porta, duas rodadas na chave. Ela sai.
Ele levanta a bunda do sofá. Vai até o notebook. Ela deixou ligado.
COM O FACEBOOK MINIMIZADO.
Coração esmurra o peito.
Ele clica. A página azul claro enche a tela do computador.
Ela tem uma nova mensagem, alerta um aviso vermelho rodeando um número 1, em branco.
Ele clica.
"Te pego hoje depois do trabaloh. T amo!", digita errado Bruno G.
A pressão dele vai ao chão. O Bruno.
Depois sobe ao teto.
O Bruno, caralho!
Filho da puta!
Ele treme. Soca a mesa. Fecha a tampa do notebook num tapa.
Filho da puta desse Bruno! PENSEI QUE FOSSE VIADO!
Tá comendo a minha mina!, arremata.
Ele calça a havaiana verde que ela deu pra ele, destranca a porta e sai. Tremendo, sempre.
Vai pra casa do Bruno ou pro trabalho dela, ele pensa no meio do caminho?
Coragem.
Para num bar. Pede uma cerveja. Pede outra. Mais uma. E a saideira.
Vai pro trabalho dela.
Chega gritando. Pula a catraca da recepção. Entra no elevador. 6º andar.
Empurra a porta de vidro do escritório. Que bate na parede e trinca.
A secretária assusta e grita. O povo das outras salas se levantam pra ver o que rola.
Lá vem ela.
Lá vem ela.
Sua vagabunda! Filha da puta! Tá dando o cu praquele bicha! Filadaputa!
Parte pra cima dela.
Erra o tapa.
O chefe dela segura ele pelo braço.
Ele se solta e empurra o chefe, que cai de bunda no chão, bate a cabeça na parede e vê estrelas.
Do que você tá falando, seu louco?
Você é louco? Seu louco!
Ele tenta mais um tapa. Erra de novo.
Um colega de trabalho bombado agarra ele pelo pescoço. Uma gravata. Ele e o fortão vão ao chão.
Ela chuta ele. Mira no saco, mas acerta a coxa esquerda.
Seu louco! O que você tá fazendo aqui? Olha o que você fez!
Um colega de trabalho bonitão segura ela. Seu braço resvala nos peitos dela. Ele (o colega bonitão) gosta.
Você tá me traindo! Sua puta! Sua desgraçada! Puta!
Ele chora.
Ele engasga, pois o bombado estreita a gravata.
Ela chora.
EU VI A MENSAGEM DO BRUNO NO TEU FACEBOOK!, ele grita.
Ela para de se debater. O bonitão abraça ela, meio que por trás.
Ela olha pra ele, no chão, chorando feito criança.
Olha pro chefe estatelado na parede.
Sente a mão do bonitão na cintura.
Você olhou meu notebook?
OLHEI!
Era o Facebook da Mara que tava aberto.
Ela tava mexendo no note. Saiu antes de você acordar. E eu não quis fechar.
Mara, a colega de república.

sexta-feira, junho 07, 2013

Umbigo sem Fundo



Umbigo sem Fundo. Título bacana. Ego sem fim, isolamento infinito, pelo que entendi. Trama claustrofóbica de tão fechado o círculo de personagens. A família Loony e mais um ou outro. Tudo isso em 700 e tantas páginas de várias engenhocas narrativas. O livro pesa na mão. Mas, a gnt lê rápido. Têm páginas que são um só quadrinho. E os quadrinhos não são infestados de textos, que nem rola nas HQs de super-heróis. É num ritmo mais mangá: muitos quadrinhos para mostrar uma mesma ação. Não tem bem uma trama. É a reação dos filhos ao divórcio dos pais, já idosos. Os filhos (e agregados) vão visitar os pais pra uma espécie de "semana de despedida." Em meio a isso, cada um vive sua disfuncionalidade particular de relacionamento. Então, se vc quer reviravoltas e uma história mirabolante, não é pra vc. O esquema são os personagens. E olha que eles são bem mundanos. O tchan mesmo são as invenções narrativas. Ou: como deixar uma história desinteressante interessante. Porque não acontece nada demais. Tem aquela pegada blasé de quadrinho "autoral"/cult norte-americano. Porém, o jeito que é feito faz a diferença entre o de boa qualidade e o de qualidade ruim. Passagens nonsense tbm tão um brilho na coisa. O Peter, p. ex., retratado como um sapo, com cara de Muppet. Gostei. O Dennis, que nunca aparece sem o meião e a chuteira, a mesma roupa, como se fosse da Turma da Mônica, gostei tbm. A feiura bonita do traço do autor, tbm é bacana. O fato de não ter uma moral da história tão escancarada - mas, de não deixar de a ter tbm: achei excelente. Por fim, vale um fds de leitura. Uma releitura mais pra frente, quem sabe.

segunda-feira, junho 03, 2013

Dentes Guardados (Daniel Galera)



A internet é boa porque vira e mexe a gnt encontra coisa bacana de graça ou a um preço digno - e sem ser pirata (se vc tiver estes pudores). Uma opção legal é o ebook Dentes Guardados, do Daniel Galera, autor que já tem quatro ou cinco livros publicados e nome fácil entre os críticos, cults, grupos literários e PIMBAs tbm. O ebook tá no site do autor (http://ranchocarne.org). Pra ler, é preciso instalar o kindle, que vc acha na faixa no site da Amazon

Vamos aos contos, todos sobre relacionamento, com uma dose de putaria, universo alterna/urbanóide, ilegalidade e jeitão de autobiográficos (ou histórias/trechos vividos por amigos) - embrulhados no estilo fluido e cativante do escritor.

Amor Perfeito: garota que reclama do namorado, que faz tudo o que ela quer. Curto, fácil de ler, intenso e com final esperado, por ser o único possível.

Chichê Romântico: um cara e uma mulher numa mesa de bar. Ele fica filosofando pra dentro. Só antes de ela dar uma notícia importante. Depois, bum!, o choque de realidade. Não lembrava muito deste conto. Não é dos mais interessantes.

Intimidade: um cara faz escândalo pq a namorada usou sua escova de dentes. Aí tem umas cenas de sexo, pensamentos sobre a vida a dois e um fim bem bom. Foi o primeiro que li e um dos que mais gostei.

Natureza Morta: um cara que vai pra cama com uma mulher mais velha que ele conhece na balada. Curtinho, com uma participação especial que muda toda natureza do encontro.

Os Mortos do Marquês de Sade: um grupo vai acampar em uma cidadezinha e resolve levar coisas embora. É a arrogância dos caras da cidade grande contra os valores da cidade pequena. Uma história que te envolve em um clima ruim, de violação, sei lá. 

Será numa Quinta-feira: uma mulher que, sem querer, desvia do caminho tradicional casa/trabalho. E das obrigações, consequentemente, também. A sinopse fala por si só. Mais poético que os outros, bem legal.

Triângulo: Triângulo amoroso com doses de inesperado. Por não ser mastigadinho e deixar pontas soltas, deixa espaço para interpretações de quem lê. Recurso batido, mas batido justamente por ser bacana de ser usado - e não por ser fácil de ser usado. Tem que ter a mão pra acertar. E o DG conseguiu. Um dos melhores contos.

Subconsciente: garotos do universo paralelo do conto têm de passar por uma "cirurgia" que para garotos/meninos/homens/senhores de nosso universo seria igual a perder a identidade. Quase isso. Legal, mas esperava um final mais impactante. Azar o meu.

A Escrava Branca: um cara coloca um anúncio no jornal em busca de uma escrava branca, que satisfaça todos os seus desejos e algumas obrigações. Mas aí surge outro sentimento, pelo menos em um deles. A ideia é original e fetichista, o desenvolvimento é mais ou menos original, mas competente. O fim tbm.

Manual para Atropelar Cachorros: Impossível não querer ler um conto com um título desses. A maldade atrai, quem não sabe disso? Contraponto fica por conta da naturalidade e certa ingenuidade do narrador. É o mundo cão contra os cães. Um dos meus preferidos.

Alguma Psicologia: um cara sai com uma garota, mas descobre que ela exerce uma profissão lá não muito bem vista pela sociedade. E assim vai. Nem os alternas lidam bem com as putas. Que coisa.

Todas as Rosas do Balde: uma menina vende flores na rua. O mundo cão em sua pureza. E o mundo cão versus a pureza. Daqueles que deixam um sentimento ruim no peito. Não porque o conto tem qualidade ruim, claro.

Tiroteio: um cara puxa conversa com um pescador dentro de um bar. O que seria uma conversa jogada fora, torna-se um martírio. Acho que é um conto sobre aceitação, se entendi bem. 

Dafne Adormecida: um casal acorda num quarto de motel, atrasado pro trabalho. É o clássico prazer x obrigações, felicidade x trabalho, rotina x aventura. Bom conto, sempre com a aura "poucos pudores" que o autor desenvolve neste livro.

Homem de Ferro 3



SPOILERS PELA FRENTE!!!

Pô, o mais legal dos filmes do Homem de Ferro não tá neste 3: Tony Stark quebrando tudo com a armadura!

Na maior parte das cenas, inclusive as de ação, o cara tá sem ela. Nas que ele usa a armadura, ela sempre tá com defeito! Tudo bem, o roteiro explica porque isso ocorre, mas, eu paguei pra ver o Homem de Ferro. E Homem de Ferro há pouco.

Cenas que não gostei nenhum pouco: 1) Tony Stark invadindo o covil do Mandarim usando apetrechos a la Esqueceram de Mim; 2) As armaduras explodindo que nem fogos de artifício; 3) Tony Stark retirando cirurgicamente os estilhaços de seu coração (se uma cirurgia resolvia o problema, pq não a fez antes?); 4) Peper Potts com superpoderes. Além disso, acho que exageraram na metrosexualzice do Tony Stark. Até onde sei, o personagem não é tão assim.

Cenas que gostei: 1) O começo do filme, com aquela música de baladinha que fala que tudo na vida é azul; 2) Garotinho que auxilia Tony Stark no Kansas (bom ator mirim); 3) Destruição da mansão: tá certo que foi meio ilógico um cara que tá vivendo crises de ansiedade entregar o próprio endereço pro maior terrorista do momento, mas a detonação da casa ficou bacana.

Outro ponto: ainda bem que não sou mto fã do Homem de Ferro nos quadrinhos. Pq se fosse, acho que detestaria ainda mais esta versão fake do Mandarim que inventaram no filme. Não sei se na versão Ultimate ele é assim, mas um Mandarim de verdade ficaria mais interessante.

Pra terminar. Fiquei com a impressão que deram uma batmanizada neste último Homem de Ferro. Batmanizada a la Christopher Nolan, quero dizer: isso de deixar o herói vulnerável, incapaz de resolver os perrengues por si só; de retratar mais a identidade secreta do que o herói em si; de FINGIR que a trama é realista simplesmente por adicionar "cotidianices". Tudo cai por terra se considerarmos o que bem lembrou meu amigo Renato Martinez: nada é realista quanto temos um cara vestido de morcego. O que também serve para os trajados de armadura.