terça-feira, junho 24, 2014

Centro

Um cachorro malhado que se espreguiça.
Um homem que para em frente a um moto-táxi e pergunta o resultado do jogo.
Uma lanchonete com x-salada em promoção.
Pessoas de cara triste no ponto de ônibus.
Uma fonte que não funciona.
Um sujeito perdido.
Uma senhora que cutuca o nariz achando que ninguém vai ver.
Mas, eu vi.
O motor ensurdecedor de uma caminhonete subindo a rua.
A transferência bancária que esqueci de fazer.
Uma pilha de microondas à porta de uma loja de conserto de eletrodomésticos
esconde o dono dos clientes.
Um Jesus Cristo enfeitado com fitinhas verdes e amarelas na entrada de uma
loja de santos.
Gente que caminha devagar e atravanca a passagem.
Carros alucinados esperando o sinal esverdear.
Céu de nuvens brancas e gordas.
O freio do ônibus que atrapalha a conversa do casal na praça.
A praça malcuidada.
Pombos às dezenas empoleirados nos fios de eletricidade
sujando de bosta a calçada de uma esquina movimentada.
Um pensamento sujo.
Edifícios residenciais com parapeitos arredondados.
Vendedoras cutucando as unhas e matando o tempo.
Cheiro de fritura.
Agência bancária ao lado de estúdio de tatuagem.
Uma moça bonita.
Outra.
Taxistas falando mal da prefeita.
Mulheres lindas nas capas das revistas.
Uma senhora escorada no portão vendo seu resto de vida passar.
E um mendigo deitado no estacionamento de uma loja para alugar
de paredes roxas
conversando alto
fazendo de celular
uma garrafa de Corote.

O achado

Num sábado qualquer, ano passado, fui ao Sebo da Nove, aqui em Ribeirão Preto, trocar uns livros. O dono fez as contas e eu tinha direito a pegar 45 reais em mercadoria. Lá fui eu.

Não sei porque cargas d'água, parei numa parte da prateleira com alguns livros do Henfil. Gosto do traço dele, mas não sou nenhum superfã. Mesmo assim, deu vontade de levar um livro dele -- algo que ele tenha escrito, e não desenhado.

Um título então me chamou atenção: "O diário de um Cucaracha". Claro, já tinha ouvido falar do livro, mas não sabia do que se tratava. "Vou levar justamente por isso", pensei. É bom comprar algo que não se conhece bem e ser surpreendido.



Eis o grande momento do dia. Eu já procurava por outros livros, em outras prateleiras, quando decidi trocar o exemplar de "O diário de um Cucaracha". Olhei para o livro e achei ele meio gasto demais, com a capa amarelada. Então, voltei em busca de um mais conservado. 

Havia outros dois. Peguei o que estava com a cor das letras da capa menos desbotadas. E o abri, para conferir se estava tudo ok por dentro. Me deparei com isso:



Quem gosta de ir a sebos já deve ter tido a sensação de, do nada, trombar com um achado. Geralmente, tais tesouros não passam de livros que queremos muito, que ouvimos boas críticas, que nos eram queridos na infância etc -- e estão lá, perdidos, a um preço pra lá de acessível.

Neste caso, no entanto, eu de fato havia encontrado algo valioso!

Guardei o livro debaixo do braço. Com certeza estava com um sorriso bobo no rosto.

Ao chegar ao caixa, bateu a maior vontade de comentar com o dono do sebo o que eu havia achado. Pensei: vou fazer isso depois de efetuar o pagamento. Meu medo era que a descoberta do autógrafo forçasse o dono a subir de repente o preço ou mesmo não fazer a venda.

Pensei, e preferi não falar nada.

Este post então representa este momento em que eu fiquei quieto -- apesar de na verdade ter ficado louco para contar vantagem. :)

PS: fica agora -- creio que sempre ficará -- a dúvida: o autógrafo é original? Quem é Tamar?
PS2: ainda não li o livro.

segunda-feira, junho 23, 2014

vento VOLTA

entendo
PORRA
nenhuma
do que você
escreve

lembro
de NADA
que os artistas
cantam

disfarço
e faço
que sou sabido

e rezo
sempre que posso
ao GOOGLE
velho amigo.