quarta-feira, dezembro 26, 2012

Torrent

Numa esquina de Mordor,
J. R. R. Tolkien
esbarrou com um certo sujeito
barbudo e gordinho.
- Peter, filho de Jackson,
como vai? - perguntou o homem,
baforando seu cachimbo.
- Bem e o senhor?
- Também! Passeando por aí?
- Estamos em filmagem, senhor.
- Mesmo?
- Juro.
- Pois filmam o quê?
- Tropa de Elite 3:
A faca, a caveira e o saco-plástico.
- Interessante! Qual a trama?
- Depois que Sauron é deposto,
a disputa pelo controle
do morro recomeça.
E a esperança da Terra-Média
mais uma vez reside
no coração de um pequenino ser.
- Ótimo! Meu Frodo está de volta?
- Não, senhor.
"Falo de Tyrion, dos Lannister,
que sempre paga suas dívidas
e garantiu o patrocínio
pra gente rodar o filme em 3D."

terça-feira, dezembro 25, 2012

Os Filhos do Fim - Parte 1


     A luz volta a surgiu com o sol que se levanta à direita, no horizonte. As formas ganham relevo e, aos poucos, um ou outro pássaro sobrevivente começa a cantar. Mais um dia se inicia.
     Faz frio. Venta forte aqui no alto do edifício. Os companheiros encolhem-se debaixo das cobertas. As fogueiras acesas desde o início da noite não dão conta de espantar o incômodo. Ainda assim, todos dormem. Exceto eu.
     Avenida Paulista. Quem hoje é capaz de lhe reconhecer? Da beirada do prédio, observo o largo e profundo caminho de água em que você se transformou. Água salgada. Oriunda da terrível sequência de ondas imensas que se abateu sobre nós a arrasou as cidades mais próximas ao litoral. Hoje, apenas os andares mais altos dos edifícios mais elevados continuam sobre as águas.
     Do cume das antenas dos terraços é possível ampliar o horizonte e ter a dimensão do que São Paulo se tornou: um conjunto de pequenas ilhas de concreto separadas entre si por largas extensões do oceano. De onde estou, sei de cor, há 62 delas. Quantas, porém, existem além de meu raio de visão?
     Olho em direção ao meu lar, no Tatuapé, 11 km ao Leste, para onde não voltei desde 21 de dezembro do ano passado, dia em que a maldição abateu-se sobre o mundo. O peso das águas turvas do Atlântico enterrou minha casa para sempre no fundo do mar.
     Juan e Larissa deviam estar sentados no tapete na sala, brincando com qualquer bobagem, quando a tempestade do final dos tempos desabou sobre tudo. Stela provavelmente cozinhava o jantar quando o apocalipse se tornou realidade. Sofreram quando o momento chegou?
     Esta dúvida ainda hoje me aperta o coração. Morte digna. É o que toda pessoa de bem merece. Os três, no entanto, afogaram-se, tal como ratos de bueiros durante as enchentes.
     Deus, não! Sacudo a cabeça para afugentar tais pensamentos e manter a esperança. Talvez ainda seja possível...
     A luz da manhã já domina o céu. Um urubu a baixa altura cruza sobre minha cabeça e, a pouca distância, passa a voar em círculos. Meu coração bate forte. O dia começa bem.
     Uma segunda ave carniceira aproxima-se e imita a primeira. Logo, outras mais surgem. É preciso agir rápido. Abandono imediatamente meus desvarios e escalo com técnica a antena de nosso edifício-ilha. No alto, há um posto de observação instalado por nós. À frente, perto da região que um dia abrigou o Masp, um bando de aves pretas acumula-se em torno de uma carcaça imensa.
     Cretinos dos prédios vizinhos também notam a presença dos urubus e já preparam seus equipamentos. Estamos atrasados.
     - Acordem! Acordem, preguiçosos!
     Davi e Emanuel são os primeiros a levantar. Ao me verem descendo afobado a antena, sabem o que tem de ser feito e correm para a barca. O tumulto faz os demais também despertarem. Somos 13, ao todo. Nove homens e quatro mulheres.
     - Viu uma, Rafael?
     Não respondo. Perda de tempo. Agir, nestas horas, é melhor do que qualquer argumento. Além disso, dois grupos vizinhos e rivais já remam em direção aos urubus.

terça-feira, dezembro 18, 2012

Corneto de separação

"Taxa de divórcios cresce 45,6% em um ano"
- IBGE

Troco o doce do teu amor
por uma barra de cereal.
Dá de volta minhas meias,
cuecas velhas e as cerdas macias
de minha escova dental.

Teu tempo passou,
madurou tua fruta,
caiu do pé
e se espatifou no chão.

Meus pés querem estrada.
Cansei de rachar contigo
as contas
as plantas
(o ar carregado)
a pizza
a física
a privada.
Vou morar sozinho,
longe da tua lupa,
perto do Ipiranga,
pra gritar independência:
beber água no bico
ficar sem tirar o lixo
mijar e não baixar a tampa
comer pipoca na janta
atirar bituca no quintal do vizinho.

A vida é curta.
Não vou esperar
que somente a Morte
nos separe.

sexta-feira, novembro 30, 2012

HQs de 2012: Tex Edição Histórica nº 75

Resenha minha para a sessão de reviews do Universo HQ.
Para conferir, é só clicar aqui.

quinta-feira, novembro 29, 2012

Namoro virtual


Achei perdida.
Deixei para ela:
maçã mordida
sobre o beiral
da janela.

segunda-feira, novembro 26, 2012

Hello, bola!

Sunday Night Football!
Formigas de cento
e trinta quilos
correndo atrás
de uma bola oval.

Bundas assadas
em calças apertadas.
Rostos atrás do xilindró.
Pescoços enterrados
em ombros elevados
feito os paletós
do Didi Mocó.

Paulo Antunes
detesta sopa de legumes,
mas adora a de letrinhas
made in USA:
tackle
fumble
scrimmage
turn over
touch down!

Meu cérebro não aguenta e apita
sem entender
por que a galera toda grita
quando é hora do comercial*.

Pegue a pipoca,
prepare a poltrona,
pois a história do jogo é longa.
Para, para e para
e quando você repara
lá se passaram três horas!

Joe Montana?
Seu sacana.
Dan Marino?
Faro fino.
Peyton Manning?
Jardas tremem.
Babe Ruth?
There’s no truth.
Este é do baseball!

Sinônimo americano:
guerra e espetáculo em união,
neste futebol insano
que se joga com a mão!

* Cheerleaders em campo, a Wikipedia avisa.

domingo, novembro 11, 2012

Caminhada


Praça da Bicicletinha. Ribeirão Preto, coração da zona Sul. Domingo, dez da manhã. Céu azul. Gente caminhando em sentido horário. Caldo de cana e água de coco gelada. Vizinhos param o exercício e se cumprimentam. Cães altos, médios e baixos arrastam os proprietários. Sedans importados estacionados entre dois ou três populares. Tendas coloridas dos grupos de corrida. Três aviões soltam fumaça pela cauda sobre nossas cabeças: publicidade de algo que não consigo enxergar. Sujeito ao meu lado passa fazendo dancinhas e passinhos ritmados que na verdade são exercícios. Gente que transforma VHS em DVD anunciando nos postes. Mamães deslumbrantes empurram carrinhos de bebê. Bolinhas de cocô aqui e ali. Skates de duas rodas que eu nunca havia visto. Flap-flap de tênis coloridos de seiscentos reais. Nenhum preto. Homens de 45 anos de peito depilado e short de cóton. Evento pet. Moça engolida por fantasia de cachorro tira a máscara e respira. Poodles, labradores e yorkshires latem por toda parte. Camisetas “eu amo meu vira-lata” à venda. Meninas de nariz arrebitado e seus óculos escuros. Wi-fi gratuito sobre o metro quadrado de cinco mil reais. Crianças brincam nas academias ao ar livre da terceira idade. Empresas aproveitam o movimento e entregam panfletos de publicidade. Transpiração sem cheio desagradável.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Mais leituras

Mágico Vento nº 100 | roteiro: Gianfranco Manfredi | arte: Goran Parlov


Tenho quatro ou cinco revistas de Mágico Vento. Nem sei em qual número está no momento. Este fumetti é um que eu me arrependo de não acompanhar. É muito bom. Sempre tramas elaboradas e com a verdadeira (até onde isto é possível) história do velho oeste americano como pano de fundo. Esta edição em especial é colorida, nº 100. Imagino que o estilo conservador da Bonelli Comics possa afugentar leitores mais novos. Quem resolver encarar, no entanto, certamente vai poder apreciar na maioria das vezes uma história de média qualidade para cima.

Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil | Leandro Narloch


Livro que fez um bom sucesso quando foi lançado. Comprei no supermercado, para se ter ideia. Um livro que desmonta a História tal qual a aprendemos na escola não pode ser ruim, certo? O texto é bem Superinteressante, flui fácil, é bem-humorado e simples de tudo. Há boxes, ou sub, retrancas, como queira, parecidas com as de um jornal ou revista. A pesquisa é bem apurada e cada parágrafo do texto é repleto de referências. Credibilidade, precisão, leitura ágil, uma boa dose de provocação e pitadas de entretenimento. Tudo o que um texto jornalístico atual precisa para ser feliz! 

Contos Fantásticos | Guy de Maupassant


De início, não gostei. Contos pouco surpreendentes, finais repentinos, diálogos muito extensos. Não sei. Li os primeiros contos e não desceu bem. Depois, encontrei os pontos positivos. Todas os textos são histórias dentro de outras histórias. Alguns personagens estão reunidos e um puxa na memória algum fato sobrenatural que lhe ocorreu e aí tudo se desenvolve. Qual a vantagem disso? Sei lá também. Achei diferente este jeito de se contar uma história. Dá camadas diferentes ao texto. Tudo o que está narrado torna-se uma versão. A palavra do narrador fica sem aquele peso natural que atribuímos a ele.

Paraíso Líquido | Luiz Bras


Está entre os melhores do ano fácil. O livro chegou a mim direto do autor, que estava oferecendo a obra em seu site a quem mostrasse interesse. É ficção científica sem querer ser caxias ou presa a algumas paranoias de subestilos, que hoje parecem tão em voga. Não há a preocupação de ser steampunk, solarpunk, ciberpunk, space opera, entre outras variações que se transformam em bobagens quando levadas à risca. Ao invés disso, o Luiz Bras (que atende por Nelson de Oliveira se gritá-lo na rua) usou ficção científica para abordar temas mais objetivos, como o impacto da tecnologia no homem, realidades paralelas, budismo, limites da consciência e do tempo, Deus, vida, morte, caos, amizade, hierarquia, vontades e desejos, e por aí vai. É interessante também como o autor combina os termos. Em uma mesma frase com boa dose de palavreado científico, ele solta algo, sei lá, que os modernistas chamariam de "brasilidade". Mas, não fica bobo, pretensioso. Fica bem casado, dá uma ideia de expansão da possibilidade do que é falar, do que pode ser escrito, de como um único parágrafo pode abranger territórios tão diferentes. Algo que vai ao encontro da temática proposta pelo livro.

quinta-feira, novembro 01, 2012

Convite Angelus

Tem um meu neste. Tua Vontade.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Põe na tela, Latino! - Parte Final


     De manhã, pouco antes das sete horas, Julieta folheava O Imparcial enquanto tomava uma xícara de leite quente. Gostava das palavras cruzadas, mas foi uma notícia da página policial que lhe chamou a atenção.
     Dizia o texto em uma chamada escandalosa que Carmem Maria dos Santos, a Carmem Picadinho, havia ganhado liberdade no dia anterior do Presídio de Segurança Máxima de Presidente Bernardes, após cumprir 20 anos de detenção em diversos centros de reabilitação do País. Bom comportamento reduzira a pena.
     A decisão foi controversa, uma vez que diversos especialistas consideram Picadinho eternamente inapta a viver em sociedade. Sua ficha criminal tem 50 metros de extensão e pelo menos 15 homicídios, afirmava a reportagem.
     - Deviam ter torrado esta mulher na cadeira elétrica faz tempo! Se fosse nos Estados Unidos... – opinou ela, consigo mesma.
     A campainha, porém, interrompeu sua leitura. Será que a Maria esqueceu a chave em casa?, pensou.
     Ao abrir a porta, Julieta tomou um susto e teve de cobrir às pressas a camisola com o penhoar. Eram dois policiais com cara de sono. Um civil e outro militar.
     - A senhora é Julieta de Souza Silva e Moura? – perguntou o civil, sem dizer bom dia.
     - Sim. O que foi? – quis saber ela, o coração acelerado.
     - Eu sinto muito – disse o militar, entregando a ela o RG do filho: Luís Augusto Silva e Moura.
     O mesmo documento que na hora do almoço seria transmitido pelos noticiários da região – e depois até no Datena! – para mostrar a vítima de mais um latrocínio. Bon appétit!

segunda-feira, outubro 01, 2012

Angelus - Nova antologia

Capa aberta da Angelus, antologia da Editora Literata com um conto (Tua Vontade) meu.
Ficou bonita ou não?
Gostei bastante de ter escrito este conto. Ansioso pra ver como ficou a coletânea, que também conta, entre outros, com os já parceiros Joe de Lima e Valentina S. Ferreira.


quarta-feira, setembro 12, 2012

HQs de 2012: Detective Comics 1 a 12 | Tony S. Daniel (roteiros e desenhos)

Coringa virando os olhinhos e o Batman atrás, risonho...

Não é ruim. Mas, não empolga. Como o próprio nome da revista diz, é o Batman em meio a uns casos investigativos e detetivescos. Os vilões são fracos e você sabe que não vão trazer problema para o Homem-Morcego (pelo menos não pra este dos quadrinhos, que não é bundão; se fosse o dos filmes eu já não iria garantir...)
Aqui, aliás, tem algo que rolou no filme que eu nunca acho que casa bem com o personagem. Tá lá o Bruce Wayne/Batman com uma namorada, que o faz mais ou menos cair de paraquedas em uma série de perigos, porque a irmã dela é na verdade uma vilã internacional que consegue manipular o Pinguim (se entendi bem).
Também, lá pelo nº 6, há uma história protagonizada pelo Duas Caras na qual ele recorre a um monge, que (de novo, se entendi bem) tenta fazer o mega-vilão a reencontrar-se e abandonar a personalidade dividida. Tem uns manos no meio, uns bares obscuros e por aí vai...
A parte mais bacana das 12 revistas tá fim da primeira: a já famosa página inteira com a pele do rosto do Coringa pregada na parede. Neste primeiro número, o vilão pediu ajuda de um outro vilão para mudar de face – sem anestesia. Na atual fase na revista Batman, sob comando de um roteirista mais talentoso (Scott Snyder), o Palhaço do Crime vai voltar, ao que promete a editora, muito mais terrível e assustador. Deve ficar mais parecido com a última versão do cinema.
Os desenhos de Tony S. Daniel são bem legais, agradáveis, carregados na medida certa, apesar de uma cena ou outra ter um ar antiquado (não sei se o traço ou a diagramação). Já os roteiros do artista são um tanto confusos, com a inserção de muitos personagens em tramas pequenas, cheias de reviravoltas e subtramas, mas pouco impactantes.
É esperar para ver o que rola neste segundo ano da revista mais antiga do Morcegones.

domingo, setembro 09, 2012

Põe na tela, Latino! - Parte 2


     - Vamos embora? – perguntou Guto a Dona Carmem, a senhora que o agarrara à força.
     Eram cinco horas da manhã e ele já se questionava se aquilo tudo estava valendo a pena. Suas pernas formigavam de tanta dor e ele sentia duas ou três bolhas na sola dos pés. Se esta velha não aceitar minha carona, sou capaz de acabar com ela aqui mesmo, pensou.
     - Claro! – respondeu ela, evitando o pior.
     Os dois eram os últimos a deixar a festa, esforço calculado por Guto para que ninguém se prestasse a testemunha.
     O rapaz não pode deixar de se sentir nervoso ao ver a velhota entrar em seu carro. Estava tudo dando certo! Agora, não podia mais voltar para trás.
     Dona Carmem informou que morava numa ruela estreita da Vila Marcondes. Não era longe dali, dez minutos naquele horário. Enquanto fazia o retorno e pegava de volta a Manoel Goulart, Guto calculou qual seria o melhor local para atacar a mulher: logo ao fim da avenida, assim que cruzassem o pontilhão da linha do trem, escolheria uma ruazinha mal iluminada e... já era!
     Até lá, puxou conversa.
     - É viúva há muito tempo, Dona Carmem?
     - Nunca me casei.
     - Tem filhos?
     - Nenhum.
     - Nenhum parente?
     - Já enterrei todos, meu filho. Moro sozinha. Não tem perigo de você encontrar ninguém – respondeu ela, colocando a mãos sobre a coxa de Guto e lhe mostrando a dentadura, em um sorriso largo.
     O candidato a assassino engoliu seco. De fato, a velha estava querendo... Que maluca! Respirou fundo. Não podia perder o foco e sair correndo. Era ele a ameaça e não ela! Voltou a raciocinar e considerou: era ótimo ela ser sozinha. Sem ninguém para sentir falta ou reclamar o corpo.
     - O que viu em mim, bonitão? – quis saber Dona Carmem.
     Guto tentou, mas não soube segurar a risada. Ela insinuou uma cara de ofendida, porém o rapaz soube contornar a tempo.
     - Você é uma mulher bonita e me fez companhia a noite toda, o que mais um cara como eu pode querer?
     A senhora derreteu-se toda e subiu a mão, tocando a virilha de Guto – e tudo o mais naquela região. Surpreendido, ele enfiou o pé no freio e parou o carro no meio da avenida deserta.
     - O que você tá fazendo??? – gritou ele, tirando com violência a mão da mulher.
     - Cala a boca e me beija – ordenou ela, sacando um 38 de dentro da bolsa e encostando o cano na têmpora do garotão.
     Acuado e tremendo mais que um Motorola no vibracall, Guto sentiu passivamente a língua de Dona Carmem entrar em sua boca e tocar a sua, com intensidade. Insatisfeita, ela montou em seu colo e começou a lambê-lo por inteiro, chupando-lhe o pescoço e desabotoando com a mão desocupada a calça jeans do rapaz.
     Cheia de desejo, enfim, a velha meteu a mão dentro da cueca de Guto. Contudo, por mais que quisesse e fizesse, não conseguiu deixar o sujeito em pé. Nem o Capitão Nascimento conseguiria ter uma ereção com um revólver apontado para a cabeça.
     Dona Carmem não considerou este porém. Diante do insucesso, fitou os olhos de Guto e disse.
     - Xiii... Você não presta pra nada!
     BUM!
     Bem no meio da testa do rapaz.
       Ela abriu a porta do Golf, empurrou o cadáver para fora e arrancou, cantando os pneus.

Chew 01 - John Layman e Rob Guillory



Um detetive que é capaz de rastrear psicologicamente a origem e todo processo dos alimentos que come.
Se entendi bem, é mais ou menos isso.
Assim, se por um lado, todo tipo de alimento - exceto beterrabas - lhe é nojento a ponto de ser intragável, por outro, o "talento" possibilita que ele faça descobertas além da imaginação - e muito úteis à profissão.
O roteiro, pelo menos neste primeiro número, é bem textual, cheio de balões com muitas linhas, o que acaba deixando a leitura amarrada. 
Os desenhos são bacanas, bem cartunescos, apesar de meio duros e pobres em detalhes. Mas, não chegam a ser um problema. Pelo contrário. Dão um ar inocente a uma trama que, do meio para frente, se torna beeeeeeem grotesca!

Mediana. Talvez um pouco de mal gosto. Ou só eu que estou ficando velho e sem muita paciência pra estas coisas um tanto quanto gratuitamente chocantes.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Porque a nova trilogia do Batman não vale o feijão que come (com muitos spoilers)



- A personalidade do Batman: ele nunca dá conta de resolver nada sozinho, leva bronquinhas do Alfred a toda hora, só apanha, ou foge, ou se mostra despreparado diante de determinada situação. Não é o Batman fodão que aparece nos quadrinhos e no desenho da Warner;

- O Batman NÃO usa armadura! Não sei onde inventaram isso (herança dos malditos filmes do Tim Burton), mas, mesmo dono de um gigantesco arsenal tecnológico, o Batman simplesmente não usa armadura. Ele não é o Homem-de-Ferro, nem um dos Cavaleiros do Zodíaco (apesar do papo de Dark Knight);

- Extensão da anterior: Batman usa capuz, não capacete. A máscara e a capa são uma coisa só. Capinha presa ao ombro e jogada pra trás é coisa de Super-Homem. A capa do Batman encobre todo corpo. Porque o cara é do mistério, oras! Sem falar no maldito pescoço imobilizado dos filmes dos anos 90 e do Batman Begins. O Batman também não é o Robocop;

- Vilões que contam seus planos megalomaníacos ao herói, com faz Ra's Al Gul no primeiro, antes de (tentar) foder com Gotham. Hoje em dia, isto só vale se for numa abordagem cômica, né? Num filme cuja pretensão é inserir o Batman em um cenário mais realista, não dá!;

- Batman é um cara que passa mais tempo observando a cidade do alto dos prédios - e, de lá, entra em ação - do que passeando a pé, de carrinho, motinho ou aviãozinho. O Batman é uma mistura de ninja com bruxo e detetive, e não um Power Ranger;

- Aliás, onde inventaram que o Batman tem carro, moto e avião desengonçados daquele jeito?

- Batman não tem namorada, mulher, muito menos "grande amor da vida". O cara é antisocial e psicótico, por isso, não se prende a ninguém (no máximo a uma relação turbulenta com a Mulher-Gato). Por isso, ele NUNCA iria ficar enfurnado oito anos na mansão, abandonando a "carreira" para a qual ele se dedicou desde que os pais morreram por causa de uma namorada;

- Continuação: Batman não romperia com Alfred por causa de uma cartinha. O cara suportou a tragédia da família, criou Bruce Wayne e aguentou toda chatice dele (na lógica do filme) de ficar enfurnado na mansão por oito anos! Outra coisa: a empresa não ia ficar abandonada daquele jeito, com tudo indo pro saco. Outra coisa: uma mera visita de um órfão que Bruce Wayne ajudou na infância, mais uma gostosa assaltante espertalhona, não iriam motivar o retorno da morcega velha. Se ele ficou tanto tempo fora, a motivação teria de ser MUITO mais pessoal;

- Você sai dos filmes torcendo para os vilões. Bane, Mulher-Gato, Ra's Al Gul e, mais que tudo, o Coringa, são muito mais interessantes do que ele!;

- Batman nunca está um passo à frente de todos. O fazem de idiota nos três filmes! Onde está o herói?;

- Tanto no fim do segundo, quanto no fim do terceiro, ele é dado como morto, é isso? O que salvou Gotham sem levar os créditos? Onde está a criatividade?

- O Robin não chama Robin, não tem o sobrenome Blake e muito menos era policial. De onde tiram isso, meeeeeu Deus?;

- Furos mil de roteiro, principalmente o terceiro. Aliás, que lenga-lenga longa este filme! Dava pra cortar uns 40 minutos fácil!;

- Bane, de mega terrorista doido e sem um pingo de amor à humanidade é transformado em um bobão apaixonado, mero cumpridor de ordens. Quebram o personagem ao meio, mais do que ele fez com o Batman;

- O Batman NÃO tem aquela voz! Ela NÃO dá medo! Ela DÁ vontade de rir!;

- Se era pra Talia explodir Gotham só pra honrar a missão do pai dela, porque não fez isso desde o começo??? Pra que todo aquele blábláblá do Bane sobre o mundo sem governo se o próprio na verdade estava sob controle da Talia?;

- O filme parece que fica constrangido em mostrar o Batman! Nos três filmes, que juntos devem ter 8 horas e tanto, ele não deve aparecer 30 minutos!;

- Batman NÃO voa, como ocorreu ao final do primeiro;

- Tanto o segundo quanto o terceiro mostram um Batman em declínio, sem o prestígio da população. Como o espectador vai gostar do herói se os filmes não abordam a fase em que ele era o rei (se é que ela existiu, dentro da lógica da trilogia)?;

- História confusa não é história complexa. E história complexa muitas vezes não é sinônimo de qualidade. A trilogia Batman paga de complexa, mas é só confusa e sem embasamento. Simplesmente porque os criadores não deram bola ao lado heróico do protagonista, ficaram naquela de mostrar que o Batman na verdade é um lado do caráter de Bruce Wayne. O playboy foi supervalorizado, mas ele não tem um pingo do carisma do seu alter-ego. Não é à toa que nos melhores quadrinhos diz-se que a verdadeira face de Bruce Wayne é o capuz do Batman. Não puseram o foco nisso. E o Batman dos cinemas não passou de um bundão.

domingo, agosto 12, 2012

Põe na tela, Latino! - Parte 1


     Treze de janeiro de 2012, nove horas da noite. Sexta-feira. Jardim Bongiovani, Presidente Prudente, São Paulo. Guto já estava há duas horas trancafiado quando levantou-se da cama, calçou o tênis cheio de molinhas e abriu a porta do quarto. Estava decidido a começar uma nova carreira – e a data era propícia.
     Fez xixi, escovou os dentes e penteou o cabelinho chanel. Em seguida, foi até a cozinha, abriu a gaveta das facas de churrasco e escolheu a mais afiada. Guardou-a dentro da mochila, despediu-se com beijinhos nas bochechas dos pais que estavam vendo TV na sala, montou no Golf 2.0 e saiu.
     Ligou o rádio na 98 e pôs-se a pensar no que faria a seguir, ao som de Michel Teló e o hit do momento. Quem seria sua primeira vítima? Alguma puta desavisada da Avenida Brasil? Uma bichete de fonoaudiologia do Campus I da Unoeste? Uma vendedora de sapatos do Prudenshopping? Quem sabe uma pretensa atleta de shortinho de lycra do Parque do Povo? Delícia, delícia, assim você me mata!
     A indecisão sempre fora um obstáculo para Guto. Aos 27 anos, dentes brancos e hálito puro, barba bem feita, pele sem rugas, cabelo dividido ao meio e peito depilado em cera quente, o rapaz só sabia o que era esforço ao levantar 45 quilos no supino. Só a academia dava-lhe calo nas mãos.
     Fizera jornalismo por dois anos, e largou. Foi para direito, fez tudo errado, tomou bomba e desistiu. Fez intercâmbio, foi para os Estados Unidos, porém voltou antes do tempo, com saudade dos pais (esta, pelo menos, foi a sua justificativa). Agora, cursava há um ano medicina, achava uma bosta, mas, adorava as aulas de anatomia - e possibilidade de dissecar cadáveres.
    Era o bisturi entrar na carne endurecida que a felicidade tomava conta do coração de Guto. Qual era a graça? Ele não era bom em explicar sensações em palavras. Contudo, seus olhos brilhavam, as mãos suavam e um calor bom lhe chegava à genitália. Melhor explicação não havia nos dicionários!
     Quão bom seria, então, perfurar alguém vivo?
     Por um mês aquilo rondou a cabeça de Guto.
     - Um serial killer sabe a resposta! – concluiu, sem considerar que ele poderia simplesmente se tornar um cirurgião sádico e açougueiro, como existem muitos por aí, camuflados pelos jalecos brancos.
     Ele girou o dial e caiu na 101, que transmitia uma exótica homenagem ao velho herói sertanejo, Sérgio Reis. Menino da Porteira logo o fez lembrar do passado, no rancho do avô, à beira do rio Paranapanema. Mas, foram os versos da canção seguinte que inspiraram seus próximos passos.

     Não interessa se ela é coroa. Panela velha é que faz comida boa!

     - É isso! – berrou Guto de dentro do carro, chamando a atenção das mocinhas que estavam em frente ao Tio Vavá.
    Imediatamente, ele acelerou o Golf, virou à direita na Manoel Goulart até cair na Celestino José Figueiredo, em meio ao Parque do Povo. Numa ruela próxima, avistou uma fileira de carros estacionados e, logo à frente, o prédio que era seu destino. O Clube da Terceira Idade. Não pode conter o sorriso diante da esperteza de seu plano.
     Vovós são alvos fáceis, pensou.
     Era noite de baile, casa cheia, animada pela renomada dupla de desconhecidos Oliveira & Martinez. O modão comia solto e os casais já riscavam o chão quando Guto chegou à entrada do salão. Ficou sem jeito, era um dos poucos com menos de sessenta anos no ambiente e logo procurou o bar para desanuviar a tensão.
     Pediu então uma cerveja e recostou em um cantinho escuro, para observar. Qual delas? Qual daquelas senhora lhe daria a fama, as capas do Imparcial e do Oeste Notícias, bem como um novo e excitante rumo profissional? Aliás, qual apelido a imprensa lhe daria? Matador de Velhinhas, igual aquele filme chato com o Tom Hanks? Assassino de Vovós? Quem sabe o Esquartejador de Idosas?
     - Ou ainda o Exterminador da Terceira Idade? – pensou alto.
     Um convite, no entanto, o fez voltar para si.
     - Quer dançar?
    À sua frente, estava uma dona dos seus setenta anos, magra feito a desnutrição, enviada em um vestido vermelho de bolinhas verdes e com os cabelos brancos presos em infinitos grampos e jogados para trás.
    Antes que ele pudesse responder, ela o agarrou pela cintura e arrastou-o com surpreendente facilidade para o meio do salão.
    - Olha o que eu encontrei escondido perto do bar! – anunciou às colegas de baile, que logo ficaram interessadas, loucas para também tirarem uma casquinha daquele pão.
     Guto tentou se desvencilhar da dança, mas não tinha mais jeito. Então, relaxou. Se era uma vítima que ele queria, uma vítima o encontrara – quase um sinal da Providência! Além de uma oportunidade única e um disfarce que lhe permitia contato direto com a futura defunta.

sexta-feira, junho 15, 2012

Filmes de 2012: Os Vingadores



Vi o filme quando ainda tava passando no cinema. Então, aqui, vai tudo meio por memória, pelas impressões que ficaram. Achei a primeira metade meio chata. Muito falatório. Fica o bando de super-poderosos enfiado na nave da Shield argumentando por que fazer isso, por que fazer aquilo. Também não entendi muito bem porque o Loki precisava do Hulk por perto. Então, fica uma coisa meio truncada, meio enclausurada demais prum filme deste tipo! 
Além disso, nunca simpatizei muito com histórias de heróis que são dominados mentalmente pelas forças do mal, como ocorre com o Gavião Arqueiro logo no início. Você sabe que aquilo não vai durar muito tempo e etc. Se bem que, em filme de herói, você sempre tem de levar em conta que o bem vai vencer de qualquer jeito.
Na segunda metade, a coisa melhora bastante. Cenas de ação bem bacanas e boa interação entre os personagens. Destaque, sempre, para o Tony Stark/Homem-de-Ferro de Robert Downey Jr. Além dele, ótima surpresa, comentada em tudo que é crítica, blog e rede social, pro Hulk. Não sei de verdade se graficamente ele ficou TÃO superior aos dos outros filmes. Mas, o espectador se identifica muito mais rápido e com mais intensidade, simplesmente por ele ser engraçado e não um gigante que só urra.
Achei meio tosco o novo uniforme do Capitão América. Era mais bacana a versão soldado da 2ª Guerra do filme solo. O Thor também fica meio apagado, apesar de ser dele a frase mais polêmica da história, a tal "ele é adotado".
Antes de assistir ao filme, um amigo havia dito que o Loki não convence como vilão. Concordo. Fraco demais. Só serviu como escada pra várias piadas.
Não é o melhor filme de super-herói que já vi. Nem sei qual é o melhor, aliás. Mas, com certeza, é uma bela diversão. Vale sair de casa e perder duas horinhas com um óculos 3D na fuça.

sexta-feira, abril 20, 2012

Le Monde Bizarre - Nova coletânea!

E olha o que chegou!


Le Monde Bizarre - O Circo dos Horrores é lançamento da Editora Estronho. Tem um conto meu, O Garoto de Ferro.



Tem também: A. Z. Cordenonsi, Celly Borges, Duda Falcão, G. Araújo, João Manuel S. Rogaciano, Kássia Neves Monteiro, M. D. Amado, Pedro de Almada, Rafael Sales, Rochett Tavares, Valentina Silva Ferreira, Alexandre Heredia e Iam Godoy. História que não acaba mais!

Mais informações, aqui.

Tô vendendo alguns exemplares (conta aí, são estes da foto). Sai por R$ 30 + o frete, cada. No site da Estronho também dá pra comprar e lá, claro, você também tem acesso aos outros livros da editora. E paga dez centavos a menos.

Se alguém se interessar, manda um email: lucaslofer@yahoo.com.br

Aqui dá pra ler o texto da Kássia de degustação.

Boa leitura e obrigado à Estronho pela oportunidade de estar em mais uma coletânea!

terça-feira, abril 17, 2012

HQs de 2012: Novas infanto-juvenis da Editora Abril

As três resenhas foram publicadas no site Universo HQ

UFFO - Uma Família Fora de ÓrbitaLucas Lima e Lilian Lima (argumento), Lucas Lima (desenhos), Daniel Pedrosa e Gustavo Cerni (cores)

Garoto Vivo na Villa CemitérioFabrício Pretti e Estúdio Triboulet (argumento e arte), Triboulete e Bruno Tedesco (cores) e Kazullo Estúdio (letras)





Gemini 8Marcela Catunda (argumento), Ricardo Sasaki (desenhos), Leonardo Carpes e Ricardo Sasaki (arte-final) e Fernando Ventura (cores)

quinta-feira, abril 12, 2012

Séries de 2012: The Walking Dead (1ª temporada)




Amigos disseram que era bom, amigos disseram que era ruim, eu já tinha ouvido falar dos quadrinhos e do tremendo sucesso de audiência. Peguei para ver e como sei que gostei? Oras, já baixei toda segunda temporada!
A ambientação de Walking Dead é um dos pontos que mais chama a atenção. A trama não se passa em Los Angeles ou Nova York, estas cidades tão exaustivamente filmadas por filmes e séries americanas. A aventura está no Sul, nos arredores de Atlanta.
Assim, os personagens se assemelham mais com o estereótipo dos caipirões durões do que com os tiras metropolitanos descolados e/ou depressivos. O protagonista, Rick Grimes, por exemplo, é um xerife, daqueles que não medem esforços para alcançar seus objetivos e “cumprir a lei” - em uma terra onde a lei não mais existe.
Engana-se, no entanto, quem pensa que os personagens são rasos, tipificados. A série abre mais espaço para mostrar a relação, muitas vezes conturbada, entre eles do que a ação desenfreada mata-zumbis.
Estes, aliás, funcionam de certa forma como uma espécie de desculpa para colocar os personagens sempre no limite. É o medo da morte – pior, da vida sem consciência – a assombrar os sobreviventes a cada instante. Não só isso: há o medo de ver quem se ama transformado em um tipo de ser aprisionado no limbo entre a vida e a morte. Não se perde a pessoa, mas nunca mais se tem ela de volta.
São muitas as boas, muitas vezes ótimas, sacadas da série. Fica até difícil enumerá-las. A maneira como Rick Grimes é apresentado à nova realidade do mundo, por exemplo, é uma delas. Claro: há momentos um tanto descartáveis, mas de longe são minoria.
Amanhã já começo a assistir à segunda temporada.

domingo, abril 08, 2012

Filmes de 2012: Resident Evil: O Hóspede Maldito




Bem meia-boca, hein? Não conheço nada do jogo, não me recordo do nome de nenhum dos personagens, por isso talvez seja até difícil escrever algo sobre. As expectativas eram baixas e simplesmente não se concretizaram.
A historinha até que não é das piores, mas, sei lá. Mais do mesmo. A única coisa que te deixa ligado é saber como a Milla Jovovich vai recuperar a memória e se lembrar quem ela é e o que ela está fazendo naquele lugar.
Para quem vê Walking Dead, os zumbis de Resident Evil não têm impacto nenhum. Não botam o menor respeito. Os atores são todos meia-boca ou mal aproveitados. Destaque negativo, não por culpa dele, mas pelo mal aproveitamento, para o James Purefoy, o Marco Antonio da série Roma, que faz o namorado traíra da Jovovich e só serve para virar chiclete de zumbi. E a Michelle Rodriguez, que os caras só usam para fazer personagem durona, militar, com cara de foda-se o mundo?
Dá para assistir. Não é completamente intragável. A historinha, repito, não é das piores e o jogo deve ser bem bacana. Contudo, existe um milhão de filmes de ação/terror/suspense melhor para você perder umas duas horas.

sábado, abril 07, 2012

Filmes de 2012: As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne | Steven Spielberg



Filme estranho. Ação desenfreada desde o início. O que deixa o espectador um pouco confuso, pois os acontecimentos se desenrolam muito rápido. Não tem aquela coisa de apresentar o personagem e ir entrando na correria aos poucos. Praticamente desde a primeira cena o jovem repórter já se envolve no tal segredo do Licorne e assim vai até o fim do filme. Que na verdade não tem fim. Porque, como se sabe, haverá continuação.
Pensando agora, talvez o Spielberg, Peter Jackson e os outros envolvidos não considerassem necessário apresentar Tintim com mais calma. Afinal, é um personagem de décadas de histórias nas HQs, já virou desenho animado de sucesso e por aí vai...
Mesmo assim. Personagens muito mais conhecidos tiveram apresentações mais calmas nos cinemas. Homem de Ferro, por exemplo. O primeiro filme é quase um passo a passo de como Tony Stark montou a armadura e se transformou no super-herói.
Apesar da correria inicial, a trama tem uma bela qualidade: vai melhorando com o passar da história. Especialmente quando Tintim encontra o Capitão Haddock. É de se questionar como os dois tornam-se bons amigos tão rapidamente, mas, poxa... vamos deixar isso de lado pra coisa andar.
O Capitão deixa o filme mais bem humorado, despretensioso, carismático e é o ponto de ligação de mil fatos que até então vão se desenrolando sem dizer bem a que vieram.
Aí, a história deita e rola. Se já tinha aventura, fica com muito mais. Ao ponto de você assistir a certas cenas e ficar pensando na engenharia por trás de cada amarração, de cada deixa para uma coisa ir se emendando à outra e o ritmo alucinado não descambar em um amontoado sem sentido.
É embarcar na coisa e se deixar levar. A viagem não é ruim, é até bacaninha, apesar de ter ritmo de trem bala desenfreado em boa parte das cenas. Mas, eu ainda prefiro o desenho que passava na TV Cultura, com aquela musiquinha sensacional de abertura.
Aguardemos os próximos capítulos para o veredicto final!

sexta-feira, abril 06, 2012

HQs de 2012: Justice League nº 1 a 6 | Geoff Johns (roteiro), Jim Lee (desenho), Scott Williams (arte-final), Alex Sinclair (cores)



O carro-chefe das 52 novas revistas da renovação da DC Comics fecha seu primeiro arco de maneira satisfatória. As seis HQs se passam cinco anos antes da atual linha cronológica da editora e mostram o encontro fortuito entre os sete super-heróis que irão formar a Liga da Justiça.
Com exceção da amizade entre Lanterna Verde e Flash, nenhum deles se conhecia. A invasão de uma horda de comandados de Darkside é o mote para o encontro. De quebra, o Ciborgue ganha uma nova origem.
Como boa parte das aventuras que reúnem vários personagens de uma só vez, há pontos altos e baixos. Geoff Johns é sempre competente e, a cada diálogo, dá dicas da personalidade de cada um. Assim, o Batman repete seu papel de sabe-tudo/fodão/chama-a-10-pra-si, o Lanterna é o pretensioso/imaturo/corajoso, Aquaman é o líder-que-não-consegue-ser-líder/cara-de-bunda-assada, Mulher Maravilha é a guerreira/briguenta/gostosona, e o Ciborgue é o moleque/confuso/mais-maduro-que-o-Lanterna-Verde.
Não sei se foi impressão só minha, mas a principal mudança ficou com Flash e Superman. O Azulão deixou de ser o bom moço do grupo e transferiu tal carga ao velocista, que pode ser classificado agora como o bonzinho/camarada/preocupado/defensor-da-lei-e-da-ordem. Já o Super é o derruba-10-com-uma-tacada-só/bate-depois-pergunta/resolve-tudo-no-final. Outra impressão: nunca vi o Superman tantas vezes com os olhos vermelhos em uma HQ. É isso aí! Sangue nos olhos! Para mim, mais um exemplo de que a reformulação da DC direcionou 60% de sua energia para rejuvenescer seu principal personagem, paradoxalmente o mais quadradão de todos. O desafio é modernizá-lo sem tirar o ar de classicão que o Superman eternamente irá impor.
Gostei de várias outras coisas no arco, que cito de cabeça: sequência de abertura com a polícia perseguindo Batman nos prédios; forma como o Morcegão e o Lanterna chegaram até o Superman; forma como o Flash chegou aos três e sequência de quadrinhos que mostra o piparote que o Azulão disparou contra ele; palavras do Lanterna ao tocar sem querer o laço mágico da Mulher Maravilha; relação de amizade entre o Lanterna e o Flash; Superman (o mais forte) sendo a “donzela” a ser resgatada pelo grupo; Darkside e aliados dando dicas sobre o real motivo da invasão à Terra; o discurso final do Flash, com interrupções especiais do Lanterna; e o epílogo com Pandora, a nova e misteriosa personagem da DC, aparentemente responsável por mudar toda a realidade do universo da editora.
Também não gostei de algumas coisas: a magoazinha do Ciborgue (uma marmanjo de 1,90m) com o papai que não foi vê-lo jogar futebol; sermões do Batman sobre como se comportar nos momentos sérios e decisivos; tipificação excessiva dos personagens em alguns momentos; desfecho rápido e simples para uma ameaça tão grande quanto Darkside; e o momento patriótico na homenagem aos heróis no fim do arco.
Quando vi na internet que a primeira e nova aventura da Liga ficaria a cargo de Johns e Lee, comemorei. Os dois podem não ser os maiores gênios das HQs, mas eu também não sou o leitor que só se satisfaz com os Alan Moore da vida... Geoff Johns, disparado, é o hoje o roteirista mais constante do universo DC. Já deve ter trabalhado (razoavelmente bem) com todos os personagens da editora. Merece todo crédito e respaldo que possui.
Já Jim Lee, para mim, é um cara especial. Boa parte por causa dele, aos 12, 13 anos, comecei a me interessar por quadrinhos. Dizem que ele é limitado, desenha todos os personagens com o mesmo rosto e enche as páginas de hachuras. Concordo em parte. Ele é fraco ao retratar cenas paradas e para expressar emoções mais sutis dos personagens. Contudo, não tem cara melhor para desenhar super-heróis em ação do que ele! Nasceu para fazer isso! Além disso, há 20 anos não há alguém que consiga manter o traço tão jovial e solto quanto ele no mainstream dos quadrinhos norte-americanos.
O próximo arco da Liga promete trazer o reformulado Capitão Marvel, que agora atende pelo famoso grito Shazam! O slogan virou a marca. Neste caso específico, mais um acerto da DC. Afinal, libera a editora de ter que estampar o nome da concorrente em um dos personagens.


* por total incapacidade técnica minha, não consegui colocar todas as capas. Ficavam desconfiguradas e desalinhadas, por isso, optei em deixar só a primeira. O Blogger também bem que poderia criar um sistema mais simples de posicionamento de imagens...

sexta-feira, março 30, 2012

Mais uma!

E a melhor notícia do dia qual foi?


Entrei em mais uma coletânea, meu povo!
E ao lado de grandes camaradas, com os quais divido mais uma vez as páginas de um livro.
OBRIGADO aos organizadores: Georgette Silen e Eduardo Bonito!

Mais informações, aqui.

terça-feira, março 20, 2012

HQs de 2012: Ponto de Ignição nº 1 | Geoff Johns (roteiro), Francis Manapul e Scott Kolins (arte), Brian Buccellato e Michael Atiyeh (cores)


Pouco acompanho o Flash, sei o básico necessário para entender quem é quem no tal universo dos corredores escarlates – e olhe lá. O interesse por ler esta saga veio do impacto que ela terá sobre o Universo DC. Dizem, de verdade não sei, que ela é a base para a reestruturação e formação das Novas 52 HQs da editora. Vamos em frente.
Histórias do Flash sempre têm viagens no tempo, terras paralelas, entre outros conceitos pseudo-científicos. Nesta, um policial de uma Terra alternativa surge a bordo de uma moto que absorve e libera a força de aceleração (a mesma que faz o Flash ser o cara mais rápido do mundo). As semelhanças não param por aí. O sujeito, na verdade, é o Barry Allen do tal lugar alternativo e vem à nossa realidade à procura de uma anomalia capaz de destruir todas as realidades! Mais quadrinho americano impossível.
Em meio a tudo isso, Barry Allen (o verdadeiro) investiga a morte de pessoas cujos corpos aparentemente envelhecem décadas em segundos. Nosso querido Flash também está perturbado por desentendimentos com o Kid Flash - um moleque do século 31 que voltou ao passado para aprender a usar a tal força de aceleração – e com o vislumbre de poder salvar a falecida mãe, situação que a introdução da revista explica por cima e remete, ao que parece, a outras histórias do velocista que não estão neste gibi.
Parece confuso. E é. Mas, o roteiro do bom e velho Geoff Johns faz tudo se transformar em entretenimento dos mais saudáveis. É cedo dar uma opinião mais consistente sobre a saga, mas a narrativa cativa - daquelas que dá vontade de ler rápido para saber qual será o desfecho de uma cena ou como vai se resolver o enigma de determinada passagem. Nada mais apropriado a uma HQ de um personagem velocista.
Por sua vez, a arte pra lá de bacana da dupla Francis Manapul e Brian Buccellato faz o leitor pisar de leve nos freios para reduzir o ritmo e admirar os traços, diagramação e cores bem amarrados, fluidos e extremamente agradáveis.
Na parte 3 da trama, contudo, tanto o roteiro, que se embrenha em uma melodramática reunião da família Flash, quanto (e principalmente) a arte, comandada agora por Scott Kolins e Michael Atiyeh, perdem a qualidade. Mas, nada que chegue a comprometer a diversão da leitura.
Ficam os votos, no entanto, para que a dupla inicial de artistas retorne no segundo número da aventura e que Geoff Johns deixe de lado a verve de novelista mexicano que vez ou outra afeta a maioria dos roteiristas de super-herói.

domingo, fevereiro 26, 2012

HQs de 2012: Holy Terror | Frank Miller



Se você hoje em dia levar Frank Miller a sério, vai passar raiva toda vez que ler uma HQ do cara. Reconhecido e admirado por obras fundamentais do gênero super-herói, como O Cavaleiro das Trevas, Batman Ano Um, A Queda de Murdock, Elecktra Assassina, sem falar em HQs de outros gêneros, como 300 de Esparta e Sin City, desde O Cavaleiro das Trevas 2, o velho Frank deixou de ser um autor que leva a si próprio – e a indústria dos quadrinhos - a sério. Faça o mesmo.
Se DK2 foi uma espécie de sátira da primeira HQ, Holy Terror é Sin City mesclada com Batman, pontuada de ideias malucas e um tanto desconexas, somadas ao bem conhecido estilo Dirty Harry do autor.
Você pega Holy Terror nas mãos e só começa a folhear se não se importar nada com o fato do tal Fixer ser idêntico ao Batman, Mulher-Gato ser chamada de Cat Burglar, entre outras personagens xerocópias que aparecem ao longo da história. Se o leitor for incapaz desta abstração, vai sentir tédio a cada quadrinho e xingar Frank Miller de, no mínimo, cara de pau.
“Se você encontrar o infiel, mate o infiel”, frase atribuída a Maomé com a qual o quadrinhista abre o álbum. Ela representa bem o que Miller quer fazer com os terroristas muçulmanos, vilões da história e, por isso, citá-la é uma boa sacada irônica. Porém, também é um tiro pela culatra. O fã mais raivoso pode ler a frase ao pé da letra e responder: “Tudo bem, Miller. Estou indo atrás de você com uma 12 na mão! Maldito infiel à própria história!”
É por isso que não se pode levar Frank Miller a sério hoje em dia. Você passa muito ódio. Assim, por favor, leia na brincadeira e aproveite Holy Terror. Não é de todo má. É desconexa, cheia de texto, poucos quadrinhos por página, um tanto preguiçosa, mas, tem seu valor.
É uma tosqueira de luxo. Exatamente o que o autor é hoje em dia. 

HQs de 2012: Aquaman nº 1 a 4 | Geoff Johns e Ivan Reis




Acompanho 25 das 52 novas HQs da DC Comics e Aquaman foi a primeira a encerrar um arco de histórias. Não conheço muito do personagem a não ser a versão daquele antigo desenho da Liga da Justiça dos anos 80. Livre, portanto, para achar tudo uma porcaria ou bem legal.
Fiquei com a segunda impressão.
Bom, talvez ainda não seja BEM legal. Mas, é uma HQ bacana. Daquelas que prometem. Neste primeiro arco, seres das profundezas de aparência monstruosa surgem de repente à superfície em busca de comida – seres humanos, no caso.
Aquaman corre atrás para resolver o problema, porém, sofre um dilema. Quem são aqueles seres que sequer ele conhece? De onde vieram? São inteligentes, organizados socialmente ou irracionais e selvagens?
No meio de tudo isso, o roteiro de Geoff Johns faz questão de mostrar que os humanos não botam muita fé no super-herói. Várias vezes na história, ele é motivo de piada, de depreciação e sai nervosinho, com aquele sentimento de que ninguém o compreende. Por isso, de certa forma o leitor chega a pensar: Aquaman está se identificando com os seres das profundezas?
Outro atrativo da HQ é a arte, toda feita por uma equipe de brasileiros: Ivan Reis nos desenhos, Joe Prado na arte-final e Rod Reis nas cores.
O próximo arco vai abordar o fim de Atlântida, terra da mãe de Aquaman e que ele resolveu abandonar para viver na costa, de onde veio seu pai. A história já está rolando, mas vamos dar um tempo para ler outros assuntos. :)

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

HQs de 2012: The Adventures of Bernard, The World Destroyer | Skottie Young



Até onde entendi, o quadrinhista e ilustrador Skottie Young resolveu fazer um desenho por dia, para treinar o traço e os publicava em seu blog. Aos poucos, surgiram algumas piadas, cenas inusitadas, um protagonista alien – e uma história foi se amarrando... Despretensiosamente pra caramba.
São 24 páginas duplas, cada uma com uma só ilustração, que compõe uma cena completa. A seguinte amarra-se ou não à anterior e desta forma o livrinho vai se desenvolvendo. Algumas sacadas são bacanas, outras sem graça, a maioria mediana. Todas criticam aspectos do mundo moderno, em especial da moda, comportamento e do mundo das celebridades. O vilão da história, partindo desta premissa, foi muito bem escolhido!
Vale por curiosidade, para conferir o experimento – aliás, bastante comum entre desenhistas (esta ideia de uma ilustração por dia). Bernard e sua nave são carismáticos e o traço de Young é muito agradável. Ao final do livro, há uma coletânea de versões do personagem, feitas por diferentes artistas, entre eles o brasileiro Rafael Albuquerque.
Aqui, o site do autor.

segunda-feira, janeiro 30, 2012

HQs de 2012: Detective Comics nº 871 a 881 – The Black Mirror | Scott Snyder, Jock e Francisco Francavilla



Batman, que a esta altura do campeonato, não é Bruce Wayne, e sim Dick Grayson (ex-Robin e ex-Asa Noturna) encara uma galeria de inimigos grotescos (tão grotescos quanto os tradicionais vilões do personagem) – entre eles, o filho do Comissário Gordon, James Gordon Jr., um psicopata assumido.
Arco de histórias muito bom! É preciso ter certo conhecimento do que está se passando no batuniverso para entender alguns detalhes da trama. Ainda assim, nada velocidade créu nº 5. Eu mesmo, por exemplo, sequer sabia que o Comissário tinha um filho, muito menos que ele era psicopata.
Scott Snyder, o roteirista, abusa com muito talento de um recurso que as HQs fazem melhor do que qualquer outra arte: os desenhos da página contam uma cena, enquanto os textos desta mesma página referem-se a outro contexto – até o momento do boom, quando desenho e texto unem as vozes e cantam juntos a mesma passagem. A primeira cena de The Black Mirror faz uso deste recurso para mostrar o quanto Gotham City é uma cidade única no quesito bizarrice. Arrebatador.
A trama desenrola-se lentamente, ao longo das 11 revistas que formam o arco. Porém, gira em torno de James Jr., que volta à cidade mais ou menos na mesma época em que Dick Grayson assume o manto do Morcego. Não quero entregar grandes spoilers, mas a relação que se estabelece entre ambos é uma antípoda parecida à dos personagens de Bruce Willis e Samuel L. Jackson no filme Corpo Fechado. Porém, em nível psicológico.
Além disso, a história honra o nome da revista que lhe empresta as páginas e é um intrigante conto de detetive, com direito a reviravoltas, surpresas, investigação, erros, acertos, mulheres sedutoras, damas em perigo. E violência sem nenhuma sutileza.
A arte megafoda de Jock – sombria, expressionista e bastante gráfica – só deixa a aventura ainda mais memorável. O cara tem a verve de resumir graficamente a página em poucos elementos e, com eles, dar conta da narrativa, com grande fluidez. O outro artista, Francesco Francavilla, dá o tom das expressões psicopatas de James Jr, apesar de ter uma arte menos atraente e mais tradicional.
O arco teve tão boa repercussão que nos EUA já ganhou um encadernado. Aliás, no Brasil, senão me engano, The Black Mirror faz parte dos selecionados atuais das batséries nas bancas.
Na reformulação do universo DC, Snyder migrou para a revista Batman (além de escrever o Monstro do Pântano) e até o momento também vem desenvolvendo uma trama que dá gosto de ler. Mas, isto fica para uma próxima resenha.
The Black Mirror. Uma das aventuras mais legais do Batman que já tive em mãos.
Alguns detalhes da história estão AQUI.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

2ª Temporada da Margô!

Não me abandone mais, Lucas!


Pessoal,
Depois de pouco mais de dois anos (!), recomeço O Laboratório da Margô, série infanto-juvenil que publico AQUI por pura diversão!
Fiquei este tempo todo sem subir nada porque a ideia inicial era fazer ilustrações para cada um dos capítulos da primeira temporada - e só depois começar a segunda. Mudanças mil, falta de tempo, outras empreitadas e, claro, um pouquinho de relaxo, barraram o plano. 
Assim, abandonei a ideia dos desenhos e vamos só no texto mesmo. :)
Para a segunda temporada, a intenção é publicar um capítulo novo a cada semana (provavelmente às segundas). No entanto, como disse, faço a série por pura diversão. Então, perrengues ou qualquer outra coisa no meio do caminho podem alterar a programação! Se isto ocorrer, perdão.
Se você já conhece Margô e sua turma, por favor, venha revê-los!
Se você nunca foi apresentado ao pessoal... A casa é sua, faça uma visita!
Um comentário no final de cada texto é sempre bem-vindo!

Gervásio, Para Todo o Sempre

     Gervásio decidiu que era hora de acordar. Abriu o bocão em um bocejo largo e tão brusco que a mandíbula caiu; não contava com essa. Recolocou a peça no lugar, deu duas mordidas para ver se estava tudo ok e só então começou a empurrar a tampa do caixão – ou o pouco que restava dela.
     Não foi difícil removê-la. Ainda assim, estava escuro. O espaço estava lacrado por uma parede mal feita de tijolos. Gervásio lembrava-se bem do coveiro colocando-os devagar uns sobre os outros. Os vivos pensam que os mortos não enxergam mais nada, mas se enganam em acreditar que só os olhos podem ver.
     Dois chutes certeiros, um empurrão com o cotovelo, dois socos bem colocados e a barreira foi desmanchada. Gervásio arrastou-se, saiu da prateleira em que o haviam enfiado, bateu a poeira da mortalha carcomida e ficou de pé pela primeira vez em 152 anos.
     Espreguiçou-se, os ossos chocaram-se nas juntas e estalaram. Que coisa boa! Sentiu-se como um menino que acaba de levantar cedo nas férias para jogar bola com os amigos.
     Foi então que deu uma olhada nas outras gavetas do recinto, cinco além da dele: todas vazias. Um frio subiu-lhe a espinha deteriorada: estava atrasado! Filhos da mãe, ninguém o acordou na hora certa!
     Estabanado, Gervásio escalou as prateleiras e, da mais alta, removeu a custo a tampa do túmulo. Era dia, e a claridade aos poucos se enfiou dentro da câmara subterrânea, espantando todas as sombras.
     Luz... Depois de tanto tempo! Gervásio não se aguentou e, num só pulo, emergiu à superfície. Daria tempo?
     
     - Mais um brotou aqui, chefe! – ouviu alguém gritar imediatamente.
     Não era a paisagem que Gervásio imaginava encontrar. Tratava-se de um salão imenso, tão amplo que não dava para ver as paredes do outro lado. O mesmo aplicava-se à altura do teto.
     O chão era feito de pedregulhos pontiagudos, sobre os quais um incontável número de seres esquálidos empurrava sem sentido definido um milhão de pedras enormes como o Pão de Açúcar.
     Outros apanhavam gratuitamente de torturadores sem piedade. Alguns bebiam óleo escaldante, que lhes vazava pelas entranhas. Outros ainda, curvados, eram obrigados a limpar o recinto com a própria língua.
     O calor era intolerável, impregnava os ossos e turvava os sentidos. Vinha de labaredas espessas, que nasciam de aberturas no solo e subiam a alturas impossíveis de calcular. 
     De repente, algo se chocou contra as costas de Gervásio, forte a ponto de ele se desmanchar inteiro e seu crânio sair rolando pelo chão. Um humanóide vermelho, forte como um urso e feio como um atentado, de rabo pontiagudo e chifres de touro incrustados na testa, aproximou-se e disse, expelindo perdigotos.
     - Tá esperando o que pra se recompor, caveira vagabundo?! Tu já tá atrasado, meu irmão! Agora, vai ter que pegar pesado pro resto da eternidade, quem mandou ser idiota?! Ou quer que meu chicote come teu lombo mais uma vez?
     Imediatamente, Gervásio lembrou-se de quando estava vivo e assaltara a botica do próprio avô; roubara as economias do cofrinho secreto da mãe; esmurrara o pai que não lhe dera um BMW de Natal; saíra com a mulher do vizinho, abandonando-a quando ela ficou grávida de gêmeos; queimara cachorros na rua por puro prazer de vê-los torrar; humilhara funcionários; estuprara a secretária e exigira que ela ficasse calada para não morrer; aplicara caixa dois na empresa; bebera até perder o rumo e matar três trabalhadores que aguardavam o ônibus na calçada... E assim por diante.
     Gervásio perdera a hora e a oportunidade de perdão do Juízo Final. Seu lado já havia sido definido.
     - Amém! – disse ele aos próprios botões, antes de levar outra chicotada.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Filmes de 2012: Sherlock Holmes 2 – O Jogo das Sombras | Guy Ritchie



Filme bacanudo para se ver no meio da tarde, cheio de aventuras, trama mega mirabolante, reviravoltas mil e bom humor. Dois atores carismáticos nos papéis principais e as já manjadas cenas cheias de efeitos do Sr. Guy Ritchie. Por manjadas, não leiam ultrapassadas ou desnecessárias. Cabem na trama e no estilo de filme, que apesar de se passar no século XIX, é todo cheio de apelo à plateia atual.
Para mim, o filme manteve o nível do primeiro – o que é ótimo. Talvez o fato de Sherlock enfrentar seu arqui-inimigo, o Professor Moriarty, bem como a presença do outro Holmes amalucado, o irmão Mycroft, deixe a trama mais interessante no quesito personagens.
Independente disso, o que carrega o filme é a relação entre Sherlock e seu fiel escudeiro, Dr. Watson. Em certos momentos, os dois chegam a parecer um casal gay, de tão ligados e implicantes com futriquinhas um do outro. Robert Downey Jr., mais uma vez, tira de letra a interpretação de personagens engraçados de tão arrogantes. E o Watson de Jude Law ganha espaço a ponto de se tornar o protagonista em algumas cenas. Palmas para os roteiristas: Kieran e Michele Mulroney.
Também é preciso elogiar o Sr. Guy  Ritchie, que de diretor um tanto em excesso inspirado em Quentin Tarantino, mas ainda assim capaz de fazer filmes com cara própria, hoje cria blockbusters que arrastam o povão aos cinemas – sem perder o estilo.
Aqui, resenha bacana do Marcelo Forlani no Omelete.

PS: sabia que eu conhecia a cigana do filme. É a Noomi Rapace, a Lisbeth Salander de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” sueco!

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Livros de 2012: Os Negros Anos-Luz | Brian Aldiss



Em um futuro próximo, os humanos partem para o espaço em busca de vida inteligente. Graças à tecnologia das viagens transponenciais e da física buzzardiana (um passo à frente às teorias de Einstein) é possível realizar longas jornadas em curto tempo. Vários planetas com vida animal foram descobertos. Contudo, pela primeira vez os humanos defrontavam-se com possíveis seres dotados de inteligência – ainda que absurdamente diferentes de nós.
Esta é a premissa de Os Negros Anos-Luz, livro de 1964, o oitavo do escritor britânico Brian Aldiss, segundo me informa a Wikipedia. Ficção científica de primeira qualidade, mais preocupada em analisar as questões filosóficas, éticas e comportamentais envolvidas nas descobertas do futuro, do que as descobertas em si.
É um romance cheio de sutilezas, daqueles que dá vontade de ler uma segunda ou terceira vez. A leitura, aliás, é curta e fácil, mesmo que repleta de neologismos – característica comum a toda FC que preste. A narrativa é composta em sua maioria por uma série de diálogos entre os vários personagens relacionados à descoberta dos alienígenas. Muitos os julgam como meros animais inferiores, poucos os consideram uma forma de vida inteligente.
O forte da obra é a montagem do imenso cenário deste futuro próximo a partir da visão de alguns poucos indivíduos. O narrador aparece boa parte das vezes apenas para situar o leitor sobre determinado contexto. Assim, ficamos sabendo paulatinamente que a Inglaterra está em guerra com o Brasil (!), batalha disputada em outro planeta descoberto além de Plutão e permeada por uma série de regras, quase um xadrez. Também conhecemos as diferentes camadas da sociedade londrina, o Gueto Alegre (reduto dos párias), a preferência massiva por comida artificial, a moda, as tendências artísticas, as descobertas científicas, os avanços tecnológicos – e como tudo isso ainda pouco modificou o espírito humano, o que faz a experiência do livro ser um tanto triste.
Cada um destes detalhes está inserido dentro daquilo que vai vivendo cada personagem ao longo da trama. Assim, nada aparece de maneira gratuita, defeito bastante comum na ficção científica de pouca qualidade.
Para mim, o livro foi uma total surpresa, uma vez que eu nunca tinha ouvido falar do autor. Encontrei a obra em um blog que já não existe mais, e a escolhi por simpatizar muito com a capa e com o título sensacional! Vocês também já se decidiram por um livro desta maneira?
Aqui está uma outra resenha da obra.
E no Bule, um conto do Roberto de Sousa Causo inspirado no livro.