segunda-feira, janeiro 30, 2012

HQs de 2012: Detective Comics nº 871 a 881 – The Black Mirror | Scott Snyder, Jock e Francisco Francavilla



Batman, que a esta altura do campeonato, não é Bruce Wayne, e sim Dick Grayson (ex-Robin e ex-Asa Noturna) encara uma galeria de inimigos grotescos (tão grotescos quanto os tradicionais vilões do personagem) – entre eles, o filho do Comissário Gordon, James Gordon Jr., um psicopata assumido.
Arco de histórias muito bom! É preciso ter certo conhecimento do que está se passando no batuniverso para entender alguns detalhes da trama. Ainda assim, nada velocidade créu nº 5. Eu mesmo, por exemplo, sequer sabia que o Comissário tinha um filho, muito menos que ele era psicopata.
Scott Snyder, o roteirista, abusa com muito talento de um recurso que as HQs fazem melhor do que qualquer outra arte: os desenhos da página contam uma cena, enquanto os textos desta mesma página referem-se a outro contexto – até o momento do boom, quando desenho e texto unem as vozes e cantam juntos a mesma passagem. A primeira cena de The Black Mirror faz uso deste recurso para mostrar o quanto Gotham City é uma cidade única no quesito bizarrice. Arrebatador.
A trama desenrola-se lentamente, ao longo das 11 revistas que formam o arco. Porém, gira em torno de James Jr., que volta à cidade mais ou menos na mesma época em que Dick Grayson assume o manto do Morcego. Não quero entregar grandes spoilers, mas a relação que se estabelece entre ambos é uma antípoda parecida à dos personagens de Bruce Willis e Samuel L. Jackson no filme Corpo Fechado. Porém, em nível psicológico.
Além disso, a história honra o nome da revista que lhe empresta as páginas e é um intrigante conto de detetive, com direito a reviravoltas, surpresas, investigação, erros, acertos, mulheres sedutoras, damas em perigo. E violência sem nenhuma sutileza.
A arte megafoda de Jock – sombria, expressionista e bastante gráfica – só deixa a aventura ainda mais memorável. O cara tem a verve de resumir graficamente a página em poucos elementos e, com eles, dar conta da narrativa, com grande fluidez. O outro artista, Francesco Francavilla, dá o tom das expressões psicopatas de James Jr, apesar de ter uma arte menos atraente e mais tradicional.
O arco teve tão boa repercussão que nos EUA já ganhou um encadernado. Aliás, no Brasil, senão me engano, The Black Mirror faz parte dos selecionados atuais das batséries nas bancas.
Na reformulação do universo DC, Snyder migrou para a revista Batman (além de escrever o Monstro do Pântano) e até o momento também vem desenvolvendo uma trama que dá gosto de ler. Mas, isto fica para uma próxima resenha.
The Black Mirror. Uma das aventuras mais legais do Batman que já tive em mãos.
Alguns detalhes da história estão AQUI.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

2ª Temporada da Margô!

Não me abandone mais, Lucas!


Pessoal,
Depois de pouco mais de dois anos (!), recomeço O Laboratório da Margô, série infanto-juvenil que publico AQUI por pura diversão!
Fiquei este tempo todo sem subir nada porque a ideia inicial era fazer ilustrações para cada um dos capítulos da primeira temporada - e só depois começar a segunda. Mudanças mil, falta de tempo, outras empreitadas e, claro, um pouquinho de relaxo, barraram o plano. 
Assim, abandonei a ideia dos desenhos e vamos só no texto mesmo. :)
Para a segunda temporada, a intenção é publicar um capítulo novo a cada semana (provavelmente às segundas). No entanto, como disse, faço a série por pura diversão. Então, perrengues ou qualquer outra coisa no meio do caminho podem alterar a programação! Se isto ocorrer, perdão.
Se você já conhece Margô e sua turma, por favor, venha revê-los!
Se você nunca foi apresentado ao pessoal... A casa é sua, faça uma visita!
Um comentário no final de cada texto é sempre bem-vindo!

Gervásio, Para Todo o Sempre

     Gervásio decidiu que era hora de acordar. Abriu o bocão em um bocejo largo e tão brusco que a mandíbula caiu; não contava com essa. Recolocou a peça no lugar, deu duas mordidas para ver se estava tudo ok e só então começou a empurrar a tampa do caixão – ou o pouco que restava dela.
     Não foi difícil removê-la. Ainda assim, estava escuro. O espaço estava lacrado por uma parede mal feita de tijolos. Gervásio lembrava-se bem do coveiro colocando-os devagar uns sobre os outros. Os vivos pensam que os mortos não enxergam mais nada, mas se enganam em acreditar que só os olhos podem ver.
     Dois chutes certeiros, um empurrão com o cotovelo, dois socos bem colocados e a barreira foi desmanchada. Gervásio arrastou-se, saiu da prateleira em que o haviam enfiado, bateu a poeira da mortalha carcomida e ficou de pé pela primeira vez em 152 anos.
     Espreguiçou-se, os ossos chocaram-se nas juntas e estalaram. Que coisa boa! Sentiu-se como um menino que acaba de levantar cedo nas férias para jogar bola com os amigos.
     Foi então que deu uma olhada nas outras gavetas do recinto, cinco além da dele: todas vazias. Um frio subiu-lhe a espinha deteriorada: estava atrasado! Filhos da mãe, ninguém o acordou na hora certa!
     Estabanado, Gervásio escalou as prateleiras e, da mais alta, removeu a custo a tampa do túmulo. Era dia, e a claridade aos poucos se enfiou dentro da câmara subterrânea, espantando todas as sombras.
     Luz... Depois de tanto tempo! Gervásio não se aguentou e, num só pulo, emergiu à superfície. Daria tempo?
     
     - Mais um brotou aqui, chefe! – ouviu alguém gritar imediatamente.
     Não era a paisagem que Gervásio imaginava encontrar. Tratava-se de um salão imenso, tão amplo que não dava para ver as paredes do outro lado. O mesmo aplicava-se à altura do teto.
     O chão era feito de pedregulhos pontiagudos, sobre os quais um incontável número de seres esquálidos empurrava sem sentido definido um milhão de pedras enormes como o Pão de Açúcar.
     Outros apanhavam gratuitamente de torturadores sem piedade. Alguns bebiam óleo escaldante, que lhes vazava pelas entranhas. Outros ainda, curvados, eram obrigados a limpar o recinto com a própria língua.
     O calor era intolerável, impregnava os ossos e turvava os sentidos. Vinha de labaredas espessas, que nasciam de aberturas no solo e subiam a alturas impossíveis de calcular. 
     De repente, algo se chocou contra as costas de Gervásio, forte a ponto de ele se desmanchar inteiro e seu crânio sair rolando pelo chão. Um humanóide vermelho, forte como um urso e feio como um atentado, de rabo pontiagudo e chifres de touro incrustados na testa, aproximou-se e disse, expelindo perdigotos.
     - Tá esperando o que pra se recompor, caveira vagabundo?! Tu já tá atrasado, meu irmão! Agora, vai ter que pegar pesado pro resto da eternidade, quem mandou ser idiota?! Ou quer que meu chicote come teu lombo mais uma vez?
     Imediatamente, Gervásio lembrou-se de quando estava vivo e assaltara a botica do próprio avô; roubara as economias do cofrinho secreto da mãe; esmurrara o pai que não lhe dera um BMW de Natal; saíra com a mulher do vizinho, abandonando-a quando ela ficou grávida de gêmeos; queimara cachorros na rua por puro prazer de vê-los torrar; humilhara funcionários; estuprara a secretária e exigira que ela ficasse calada para não morrer; aplicara caixa dois na empresa; bebera até perder o rumo e matar três trabalhadores que aguardavam o ônibus na calçada... E assim por diante.
     Gervásio perdera a hora e a oportunidade de perdão do Juízo Final. Seu lado já havia sido definido.
     - Amém! – disse ele aos próprios botões, antes de levar outra chicotada.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Filmes de 2012: Sherlock Holmes 2 – O Jogo das Sombras | Guy Ritchie



Filme bacanudo para se ver no meio da tarde, cheio de aventuras, trama mega mirabolante, reviravoltas mil e bom humor. Dois atores carismáticos nos papéis principais e as já manjadas cenas cheias de efeitos do Sr. Guy Ritchie. Por manjadas, não leiam ultrapassadas ou desnecessárias. Cabem na trama e no estilo de filme, que apesar de se passar no século XIX, é todo cheio de apelo à plateia atual.
Para mim, o filme manteve o nível do primeiro – o que é ótimo. Talvez o fato de Sherlock enfrentar seu arqui-inimigo, o Professor Moriarty, bem como a presença do outro Holmes amalucado, o irmão Mycroft, deixe a trama mais interessante no quesito personagens.
Independente disso, o que carrega o filme é a relação entre Sherlock e seu fiel escudeiro, Dr. Watson. Em certos momentos, os dois chegam a parecer um casal gay, de tão ligados e implicantes com futriquinhas um do outro. Robert Downey Jr., mais uma vez, tira de letra a interpretação de personagens engraçados de tão arrogantes. E o Watson de Jude Law ganha espaço a ponto de se tornar o protagonista em algumas cenas. Palmas para os roteiristas: Kieran e Michele Mulroney.
Também é preciso elogiar o Sr. Guy  Ritchie, que de diretor um tanto em excesso inspirado em Quentin Tarantino, mas ainda assim capaz de fazer filmes com cara própria, hoje cria blockbusters que arrastam o povão aos cinemas – sem perder o estilo.
Aqui, resenha bacana do Marcelo Forlani no Omelete.

PS: sabia que eu conhecia a cigana do filme. É a Noomi Rapace, a Lisbeth Salander de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” sueco!

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Livros de 2012: Os Negros Anos-Luz | Brian Aldiss



Em um futuro próximo, os humanos partem para o espaço em busca de vida inteligente. Graças à tecnologia das viagens transponenciais e da física buzzardiana (um passo à frente às teorias de Einstein) é possível realizar longas jornadas em curto tempo. Vários planetas com vida animal foram descobertos. Contudo, pela primeira vez os humanos defrontavam-se com possíveis seres dotados de inteligência – ainda que absurdamente diferentes de nós.
Esta é a premissa de Os Negros Anos-Luz, livro de 1964, o oitavo do escritor britânico Brian Aldiss, segundo me informa a Wikipedia. Ficção científica de primeira qualidade, mais preocupada em analisar as questões filosóficas, éticas e comportamentais envolvidas nas descobertas do futuro, do que as descobertas em si.
É um romance cheio de sutilezas, daqueles que dá vontade de ler uma segunda ou terceira vez. A leitura, aliás, é curta e fácil, mesmo que repleta de neologismos – característica comum a toda FC que preste. A narrativa é composta em sua maioria por uma série de diálogos entre os vários personagens relacionados à descoberta dos alienígenas. Muitos os julgam como meros animais inferiores, poucos os consideram uma forma de vida inteligente.
O forte da obra é a montagem do imenso cenário deste futuro próximo a partir da visão de alguns poucos indivíduos. O narrador aparece boa parte das vezes apenas para situar o leitor sobre determinado contexto. Assim, ficamos sabendo paulatinamente que a Inglaterra está em guerra com o Brasil (!), batalha disputada em outro planeta descoberto além de Plutão e permeada por uma série de regras, quase um xadrez. Também conhecemos as diferentes camadas da sociedade londrina, o Gueto Alegre (reduto dos párias), a preferência massiva por comida artificial, a moda, as tendências artísticas, as descobertas científicas, os avanços tecnológicos – e como tudo isso ainda pouco modificou o espírito humano, o que faz a experiência do livro ser um tanto triste.
Cada um destes detalhes está inserido dentro daquilo que vai vivendo cada personagem ao longo da trama. Assim, nada aparece de maneira gratuita, defeito bastante comum na ficção científica de pouca qualidade.
Para mim, o livro foi uma total surpresa, uma vez que eu nunca tinha ouvido falar do autor. Encontrei a obra em um blog que já não existe mais, e a escolhi por simpatizar muito com a capa e com o título sensacional! Vocês também já se decidiram por um livro desta maneira?
Aqui está uma outra resenha da obra.
E no Bule, um conto do Roberto de Sousa Causo inspirado no livro.

sábado, janeiro 14, 2012

Ponto G

      O cansaço de caminhar dias e dias pelos terrenos acidentados da ilha, somado às emoções devastadoras dos últimos instantes, de repente chegaram-lhe às pernas. Ele dobrou-se como pode, lentamente, e se sentou em um degrau da popa avacalhada do ainda glorioso HMS Beagle. O navio rasgava o mar e seguia viagem.
    O olhar perdido na distância condenava um cérebro em nuvens, adensadas pelas últimas palavras da amiga, que ele deixara a contragosto na ilha. Nunca mais iriam se ver.
               
      “Darwin, agora é só você. Não vai adiantar. Chorar vai fazer-me sofrer.”

      Tais foram as três últimas frases do diálogo entre o inglês e a tartaruga do pescoço comprido. Um mês de intensa companhia fez com que um forte sentimento os conectasse. Era o amor, que veio como um tiro certo naquele lugar onde já sabemos que ele atinge – e eu não falo do coração. Assim, pelo menos, nosso querido e estudioso aventureiro julgava as coisas.
      A conversa infeliz começara em tom professoral, enquanto os dois faziam um último passeio.
      - Olhe ao redor da ilha, Darwin querido, e repare quantas tartarugas somos e como cada uma de nós é diferente uma da outra. Você poderá entender muita coisa ainda obscura – alertou-lhe a amiga.
     O naturalista, contudo, não conseguia ler as entrelinhas. O amor já se tornara a medida de todas as coisas e, fora dele, nada existia. Por isso, respondeu.
     - Eu só queria ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer...
   A tartaruga olhou-o com cara de quem não entendera bulhufas. Ainda assim, prosseguiu com os conselhos, que julgava de fundamental importância para serem perdidos com as embromações sentimentais do amigo. Com a cabeça, ela indicou um grupo próximo de passarinhos.
    - Repare nos tentilhões e você vai ver como cada um deles tem um formato distinto de bico. Não é por acaso. A forma foi adaptada ao longo dos anos de acordo com a finalidade adquirida por cada um. Tais mudanças foram repassadas de pai para filho, até hoje se configurarem assim.
    A sabedoria inata da tartaruga, que discursava como verdadeira doutora no assunto, passava batida ao cientista. O ritmo encantador e a harmonia suave de sua voz, no entanto, hipnotizavam o jovem. Foi então que ele abriu o peito mais uma vez e arriscou.
     - Eu não posso deixar que o tempo te leve jamais para longe de mim...
    Se os tivesse, a tartaruga teria dado de ombros. Como carregava um casco imenso no lugar e, por isso, estava acostumada ao peso absurdo das responsabilidades, ficou indiferente. O pobre inglês julgou aquilo como desprezo e sentiu a agonia aumentar.
     - Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não esp...
    A paciência que todo quelônio naturalmente parece ter tinha se esgotado na tartaruga de nossa história. Ela não queria ir para lugar algum, gostava das coisas e dos seres únicos da ilha e não a trocaria jamais, por sentimento algum.
    Era justamente tal singularidade que ela gostaria de transmitir ao teimoso naturalista, que não enxergava o valor do conhecimento lhe passado de graça em mãos.
    - Darwin, querido, abra teus olhos. O pior cego é aquele que não quer ver. Eu quero que risque meu nome da tua agenda. Não vou embora com você.
   Então, ela completou o recado com as palavras que agora ecoavam na cabeça do cientista, como se fossem um bis.

     “Darwin, agora é só você. Não vai adiantar. Chorar vai fazer-me sofrer.”

     Obediente, o pobre inglês engoliu as lágrimas para manter um rascunho de força e não desabar de vez em frente à amiga. Em seguida, recolheu lentamente as tralhas científicas que espalhara ao longo do terreno acidentado da ilha e embarcou a contragosto, não sem antes olhar para trás – e ver a tartaruga voltar para casa, na companhia de outra tartaruga, macho.
     O HMS Beagle desancorou e, devagar, tomou rumo do mar aberto, até navegar solto, impulsionado pelo vento destinado aos homens de boa fé. A tripulação, toda no convés, trabalhava com gosto de ganhar o oceano outra vez. Cada légua percorrida era uma légua a menos no caminho de volta para casa.
     Apenas um tripulante estava quieto, amuado num degrau da popa do navio explorador. O peito esmagado fazia o inglês rejeitado pedir por ajuda. “Quem vai me curar o coração partido?” - perguntava ele aos seus botões, sem ouvir resposta que o satisfizesse.
   À medida que o brigue ganhava mar aberto, o cientista manteve fixo o olhar em um único local: no horizonte, a ilha tornava-se um borrão disforme. Aos poucos, parecia diminuir, até se tornar um ponto perdido na vastidão.
    Dele, nosso amigo não despregou os olhos, até que só houvesse o azul profundo do encontro entre o céu e o oceano. Seu coração acabava de afundar.
   Tomado por súbito desfalecimento, poderoso como um sonífero, o inglês cerrou as pálpebras, entregando-se ao infinito abatimento.
     Em último ato de desespero, ele juntou as mãos em oração, e pediu à guardiã de seu desespero.

     “Ilha, descansa meus olhos, sossega minha boca, me enche de luz!”

     Tal como se fosse atingida por um meteoro da razão, a mente do naturalista levou um baque e quase não resistiu à violência do impacto. Uma ideia sem precedentes acabava de se instalar sob o crânio, suficiente para trazer o gênio de volta à vida.
      Finalmente, ele compreendia as palavras da tartaruga.
      E, com elas, mudaria o mundo para sempre.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Livros de 2012: 1000 Universos nº 1 | Junior Cazeri (Organização)



Conhecida coletânea online de contos de ficção científica, terror, fantasia e assuntos do gênero produzida pelo blog Café de Ontem, do Junior Cazeri. Em apenas um ano, já está na terceira edição. Optei por começar a leitura a partir do número 1.
A iniciativa é bem bacana e, até onde sei, simples: é só mandar um conto mais ou menos dentro da temática. Se a organização gostar, publica. Eu mesmo mandei três para a edição nº 3 da revista. Nenhum foi selecionado.
Não é por mágoa que resolvi fazer esta resenha – que, infelizmente, não será muito elogiosa. Achei justo conhecer o material para o qual eu mesmo já tinha enviado trabalhos e que por pura falta de tempo ainda não havia lido. Benditas férias.
Não gostei desta primeira edição.
Apenas dois dos oito contos me chamaram a atenção: Quimera das Cinzas Douradas (Georgette Silen) e Ars Nova (Ana Lúcia Merege), por coincidência, o primeiro e o último, respectivamente. São os dois mais bem ambientados, que desenvolvem com mais capricho os personagens, que trabalham melhor cada parte da trama e mais bem conduzem a expectativa do leitor. Ainda assim, senti falta em ambos de um final mais arrebatador, mais recompensador. Faltou aquela curva inesperada, que deixa quem lê sem saber ao certo onde o caminho vai levá-lo.
Os outros seis contos não me empolgaram, mais ou menos pelo mesmo motivo: faltou atrativo para enfiar o leitor de cabeça no texto. 
Em Ouvir Estrelas (Ana Cristina Rodrigues) a abordagem é muito superficial; já Adam (M. D. Amado), apesar da ótima sacada, tem uma narrativa demasiado explicativa, linear e prolixa, faltando melhor construção. Em Sonho Ruim (Marcelo Galvão), falta aprofundamento dos coadjuvantes, apesar da bela ideia de ambientar o conto no Haiti, com um protagonista médico brasileiro. Amazônia Urderground (Romeu Martins) termina a história muito antes do tempo, de um jeito rápido, sem aproveitar o enorme potencial dos personagens. Em Aquela Garota de Olhos Brilhantes (Miguel Carqueija), a história começa bem, porém, a maneira inocente com que o crime é desvendado só poderia ser aceita em uma coletânea infantil. Mesmo problema de Sangue em Suas Mãos (Marcelo Paschoalim), cujo desenvolvimento da trama, apesar da violência dos crimes, apoia-se em passagens trabalhadas com o olhar de Poliana.
O download das três 1000 Universos é gratuito. Mais informações sobre cada um dos autores encontram-se nas últimas páginas da edição.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Coletâneas do primeiro semestre

Galera,
Para me organizar, fiz uma lista das coletâneas de contos que vou participar este ano, pelo menos até o primeiro semestre. Não estão aí TODAS as coletâneas do universo, as que não me interessaram, não adicionei. Porém, a maioria está - e em ordem de data de emissão (olha como sou legal). Mais informações nos sites, blogs, twitters e facebooks de cada edidtora. Se interessar a alguém...

1) Angelus, Ed. Literata
15 de fevereiro de 2012

2) Imaginários 5, Ed. Draco
29 de fevereiro de 2012

3) A Fantástica Literatura Queer, Tarja Editorial
1º de março de 2012

4) Terra da Magia, Ed. Infinitum
25 de março de 2012

5) Terrir (Zumbis e Assassinos), Ed. Estronho
27 de março de 2012

6) Solarpunk, Ed. Draco
31 de março de 2012

7) Super-Heróis, Ed. Draco
31 de março de 2012

8) Imaginários em Quadrinhos, Ed. Draco
31 de março de 2012

9) Brasil Fantástico, Ed. Draco
31 de março de 2012

10) Eu; Monstro, Ed. Infinitum/Tecnofantasy
20 de abril de 2012

11) Piratas - Os senhores das águas sombrias, Ed. Literata
15 de abril de 2012

12) S.O.S. A Maldição do Titanic, Ed. Literata
15 de abril de 2012

13) Malditas (as casas têm atmosfera), Ed. Estronho
20 de maio de 2012

14) Terrir (Monstros e Monstros Marinhos), Ed. Estronho
27 de maio de 2012

15) Excalibur, Ed. Draco
31 de maio de 2012

16) Suburbia, Ed. Estronho
1º de junho de 2012

17) Terrir (Bruxas e Medieval), Ed. Estronho
27 de julho de 2012

domingo, janeiro 08, 2012

Livros de 2012: Breganejo Blues – Novela Trezoitão | Bruno Azevêdo



Livro curtinho, permeado de ilustrações, anúncios saudosistas de cursos à distância, tirinhas do Tex - e bastante espaço em branco nas páginas. Palavreado solto, sem vergonha de palavrões. A narrativa fragmentada, com saltos entre um capítulo e outro, a serem preenchidos pelo leitor. Além disso, muita referência a cantores bregas, à cidade de São Luís (MA), à música sertaneja - e, principalmente, à cornidão.
A trama é interessante e psicodélica. Uma dupla sertaneja – Adailton e Adhayton – está em baixa. Então, Adailton decide simular a morte do parceiro em um acidente de carro. Porém, Adhayton retorna depois de cinco anos, como um travesti performático.
Diferente de O Código da Vinci, há poucas reviravoltas na história. Quase nenhuma. Claro, anos-luz separam a proposta de uma obra da outra. Porém, mais uma vez está lá: um crime, a mocinha, o detetive, etc.
A aventura em si não é tão cativante. O jeito como as partes são amarradas é o principal atrativo. Cada trecho funciona como um retalho que o autor costura no outro, e no outro, e no outro, até resultar em uma novela. A fórmula, eu sei, não é nem um pouco inédita, mas o resultado é agradável.
Os anúncios e tirinhas do Tex não são fundamentais para o entendimento da história. No entanto, colaboram com o clima escrachado e multirreferencial do livro. Antes de ler, ao folhear as páginas, pensei que eles ficariam descoladas, que eram mero capricho. Não, eles funcionam, justamente pelo fato de o livro ter esta “pegada” informal.
Algumas frases de efeito são bacanas – “o mundo é um bicho teórico” – e o humor predomina até nas cenas trágicas. Não é, porém, aquele humor de gargalhadas. E sim de risadinha sacana no canto da boca.
No entanto, alguns trechos são tão fragmentados que fica difícil o entendimento. Além disso, creio que se não fosse o prefácio, do Reuben da Cunha Rocha, eu iria demorar muito para sacar o que se passava na trama – e teria desistido do livro.
Quem comprar a obra direto com o autor, o Bruno Azevêdo, como eu fiz, tem direito a um autógrafo e a ganhar um aviãozinho de brinquedo. É só falar com ele.
Quem quiser ler Breganejo Blues online, é só baixar na Mojo Books.
Uma resenha bacana do Marcus Ramone está no Universo HQ.

Tenho o outro livro do Bruno, O Monstro Souza, mas este fica mais para frente.

Livros de 2012: O Código da Vinci | Dan Brown



Terminei ontem. Quase nove anos depois de o livro ter sido lançado. Longe, então, do boom – e do reboom, na época do filme.
Foi o melhor thriller que já li. Devo ter lido uns dez na vida.
O mote de todos – pelo menos os que tive em mãos – é parecido: um crime, o mocinho inteligente, a mocinha também sabida, mistério difícil de ser desvendado, correria, uma sociedade secreta, frases de efeito, ilustrações explicativas em meio ao texto, reviravoltas mil e um final feliz.
Entretenimento na veia, com doses de sabedoria a la documentários do Discovery Channel.
Não acho nem um pouco ruim.
O Código da Vinci foi o que mais me prendeu. Daqueles de ler 50 páginas sem perceber. De ficar até tarde da madrugada – e voltar a ler em ligeiros momentos de folga.
Foi também o que me mais me fez acessar o Google e a Wikipedia para sacar alguns trechos do livro (não sou nenhum pesquisador avançado). Revi os quadros do Leonardo da Vinci, a tal Pirâmide Invertida do Museu do Louvre, o Priorado de Sião, a lista completa dos supostos Grãos-mestres, etc.
Para mim, não importa se é verdade ou não. É cativante, me mantém amarrado no livro – então pronto. Vale lembrar também que não foi a “revelação” sobre o Santo Graal que me prendeu à história. Já tinha ouvido e lido boa parte da versão da lenda contada no livro.
É a forma como o todo é amarrado que nos prende a alguma obra, né? Foi isso.
Algumas reviravoltas, claro, beiram o impossível. Mas, ficaram bem amarradas e não soaram forçadas – como em outros thrillers que já li. 
Os personagens são bacanas, em especial os vilões. Mesmo Robert Langdon é um “detetive” diferente, mas não tão diferente a ponto de ser uma ruptura. Na leitura, contudo, não o imaginei em nenhum momento com a cara do Tom Hanks (apesar de eu não ter visto o filme, vi trailers, pôsters, etc).

Qual outro do Dan Brown vocês recomendam que eu leia?