quinta-feira, abril 11, 2013

Os Filhos do Fim - Parte Final


     A luz ressurge com o sol que se levanta no horizonte. Mais um dia se inicia.
     Sobrevivi ao Fim do Mundo, perdi minha família, batalhei duro para dominar a pesca das baleias perdidas e negociar a carne nos pontos acessíveis que sobraram da cidade. Poucas vezes fiz o que quis nesta vida, mas em nenhum segundo me senti um escravo.
     Desde que Jonas apareceu, no entanto, me transformei em um. Sem força de expressão. 
     Os Tubarões do Paraíso, a Trupe do Gringo, mesmo Sidney e seus imbecis e outros tantos que caçavam na Paulista não existem mais. Pertencemos todos à Profetas Pesca e Abate Empreendimentos Ltda., braço de exploração marítima da POX, Profetas Organizados Multiplicados, sociedade que atua em diversos negócios e pertence a seis idiotas que se consideram sabedores do futuro, auto-intitulados profetas. São, na verdade, escravocratas psicóticos, que sustentam o poder à base de um arsenal armado guardado a sete chaves. Dizem que possuem até um helicóptero.
     Um urubu a baixa altura cruza o céu e logo à frente passa a voar em círculos. Meu coração, contudo, não bate da mesma forma como antes. Por mais que nos esforcemos para fazer uma boa pesca, nada fica com a gente. Há sempre um capanga dos Profetas nos observando do alto de um prédio, de fuzil em mãos.
     Nossas antigas barcas não existem mais. Ganhamos lanchas inoxidáveis, movidas a motor. Sem a necessidade de vários braços para remar, Lara, Alexandre, Sérgio e Davi foram expulsos da avenida. Gringo perdeu cinco homens e o grupo ralo de Sidney foi praticamente desmembrado. Restaram ele e mais um.
     Novos caçadores foram arrebanhados, embora o pagamento de todos nós fosse duas parcas refeições ao dia. A Paulista ficou pequena para o número de baleias que abatíamos. Por isso, nossa área de atuação aumentou, nos estendemos para o Sul, pela Domingos de Moraes, trecho da antiga avenida Jabaquara e da rua Vergueiro e parte alta da Lins de Vasconcelos. 
     A lancha toca a superfície d’água e minha tristeza aumenta. Um cetáceo gordo está a poucos quilômetros, mas o instinto primitivo do caçador não aflora mais como antes. As ações são mecânicas, mero cumprimento de tarefa.
     Somos três, apenas. Estou nos motores, Gringo de arpoeiro e Júlio auxiliando ambos. Vejam só que trio... Trabalhamos mudos, sem afinidade alguma. Caçar, com tantos instrumentos apelativos e desafetos ao lado, tornou-se uma sequência apática de apertar botões.
     Três anos já se passaram e cá estamos nós, amarrados a grades que não podemos ver, aos grilhões invisíveis da escravidão. O mundo acabou e nós sobrevivemos. Porém, um Armagedom muito mais violento se instala dentro de mim.
     O Gringo dispara e o arpão penetra fácil na carne do animal. A baleia sacode o corpo, as ondas elevam a lancha. O tiro, contudo, foi no ponto certo e ela já não tem mais chance. Fácil, rápido, lucrativo – e sem graça.
     Regressamos ao Overleven, transformado em matriz da Profetas Pesca e Abate. Despejamos o cadáver gigantesco na mão dos recém-criados escravos destrinchadores, cujas facas enormes e o rosto sujo de sangue não permitem qualquer sentimento de empatia.
     Subimos. E a surpresa do dia é que Jonas e seus capangas estão entre nós. Desovam um novo grupo de escravos, dezesseis pobres diabos com boa estrutura óssea, rapazes no fim da adolescência e adultos jovens, capazes de aprenderem rápido e substituírem a nós, velhos enferrujados.
     Estamos em círculo e o coronel da Paulista fala. Faz questão de dividir com nós dados e números que apontam os lucros de sua empresa e como, em dois anos, ele foi capaz de comprar a participação de dois outros profetas. Não porque nos deva qualquer satisfação, mas porque crê na teoria de que o pobre respeita quem tem o que ele jamais poderá ter.
     - Meu destino é crescer e engolir a todos. Este é meu destino, como vocês bem sabem. Ser o único profeta.
     O homem continua a discursar, mas minha atenção volta-se para um dos recém-chegados: um garoto cabisbaixo sem barba na cara e cabelo desgrenhado abaixo dos ombros. 
     O jovem levanta a cabeça e vejo uma venda de pirata tampar-lhe o olho direito. Exceto este detalhe desagradável, a fisionomia é familiar... 
     Sinto minhas pernas fraquejarem a ponto de eu cambalear e Jonas fitar-me com olhar se assassino, suspeitando que eu estivesse embriagado e houvesse lhe roubado bebida.
     Meu coração esmurra o peito, tenho vontade de correr, de chorar, de gritar  – mas, não posso.
     O que consigo é sussurrar duas sílabas para os meus botões e formular uma pergunta, cuja resposta os anos até então se negaram a conceder.
     - Filho? 
     À distância, o garoto me observa. 
     E seu único olho brilha.

quarta-feira, abril 10, 2013

Os Filhos do Fim - Parte 5


     Da cabine, surge um homem limpo como eu não via desde antes do Armagedom. Cabelo preto penteado para trás, fixo à base de gel, óculos escuros, barba feita, camisa branca bem passada, calça de sarja sem uma ruga, chinelos de dedos – e um binóculo infravermelho dependurado no pescoço. Parece um turista.
     - Você é um exímio pescador – disse-me, com um sorriso no rosto.
     - O que quer? – respondi, desconfiado de tanta afetação.
     Ele fica em silêncio. Depois avança até o limite da proa e volta a falar.
     - Permita que eu me apresente. Meu nome é Jonas e, como vê, não sou da região. Imagino que também não passem muitas embarcações como as minhas por este canal imundo. E pensar que antes da Inundação eu era dono de cinco andares em diferentes prédios da Paulista...
     O sujeito coça o queixo e continua o discurso.
     - Creio que não é ignorante e já tenha pelo menos ouvido falar na história de meu xará bíblico, aquele engolido por este animal que vocês caçam com tanta selvageria. Soube que a avenida tinha se tornado local deste tipo de matança e quis ver o espetáculo de perto. 
     Mais uma pausa e ele prossegue.
     - Além do nome, herdei de Jonas o dom da profecia. E creio que acertarei a que vou fazer agora: Vocês vão me entregar a baleia neste instante.
    Meu rosto começava a se transformar em uma gargalhada esnobe quando de todos os cantos do iate e das lanchas homens sacam metralhadoras e fuzis – e os apontam para o meio dos meus olhos.
    O Gringo trabalhou para mim. No fim, nós dois trabalhamos para um maldito engomadinho.

terça-feira, abril 02, 2013

Os Filhos do Fim - Parte 4


      O Gringo tem de partir para o improviso, uma vez que perdeu seu arpão ao nos afundar. Sua barca é um revólver sem balas, uma bomba sem explosivo, um corredor manquitola. O que deveria me deixar sossegado, mas se trata de um dos melhores, adaptado às intempéries.
Ele ata uma porção de cordas a um grupo de lanças menores. Esperto. Pode ser que não acertem no primeiro ou segundo tiro. Mais provável que alguém tenha de desembarcar sobre o lombo do cetáceo para desferir o golpe final.
Não posso arriscar um novo tiro à longa distância. Sou bom, mas o espanhol está adiantado. É preciso esperar, fazê-lo trabalhar para a gente e dar o bote apenas no momento final e preciso. Esta é nossa tática.
O Gringo aponta a proa em direção à cabeça do animal. Não se pode aproximar muito, sob o risco de ser atingido pela cauda. Ele, claro, não comete este erro e faz o primeiro disparo. A lança penetra na carne da baleia, porém não muito fundo. O bicho se retrai, mas não se abala. Fica, na verdade, mais furioso e avança em direção à Trupe.
Há tempo para manobra. Eles desviam a bombordo e agora são arrastados pela baleia. Todo dorso do animal fica à disposição dos caçadores, que não perdem tempo. O espanhol dispara mais uma vez, e a lança desta vez finca profundo, como se fosse o mastro de uma bandeira. Ele solta uma gargalhada de satisfação ao ver o cetáceo debater-se.
É preciso esperar o animal sossegar um pouco para fazer uma nova investida. O sangue precisa escorrer para que a baleia se enfraqueça e acabe se entregando. A adrenalina tem de ser contida, sob o risco de o caçador tornar-se a caça.
No entanto, quando há concorrência por perto, este intervalo não é respeitado. Ninguém quer perder aquilo que conquistou e voltar rebocando um ser de 40 toneladas significa escambo fácil durante bons meses.
Sedento por glória, o Gringo atira duas lanças de uma só vez. Ambas se cravam com força no lombo do cetáceo, que arqueja, afunda e arrasta consigo a barca. A Trupe desequilibra-se e um dos homens cai ao mar.
A baleia retorna à superfície. A água ao seu redor transforma-se em uma pasta grossa vermelha. Urubus mais destemidos avançam e beliscam as feridas abertas. O animal imenso sofre. É nossa vez de voltar a agir.
Ordeno aos homens para virar a estibordo. Cruzamos por baixo das cordas que prendem as lanças espetadas na baleia à barca da Trupe. O Gringo observa minha manobra sem entender ao certo o que pretendo.
Temeroso, imediatamente ele dá a ordem, apesar de ainda não ser o momento.
- Puxem! 
Eles obedecem e puxam.
- Mais forte, culos!
O animal luta, debate-se a água, mas cede aos poucos.
O Gringo dispara outra lança certeira e, em seguida, mais uma – a última de seu repertório. E quando sente confiança de que a baleia está bem presa, manda:
- Remem!
E eles remam.
Quero-os assim. Bastante ocupados.
Enquanto trabalham, já chegamos ao outro lado do animal. Três barcas muito atrasadas sobem a Paulista. Preciso ser rápido, a concorrência logo ficará insustentável e a baleia acabará sendo retalhada na disputa entre muitos pescadores. 
Convoco Teresa para ser a arpoadora e lhe tomo o facão da cintura. Em seguida, pulo ao mar sem dar explicações e nado em direção à baleia. De trás do animal, o gringo não pode me ver.
 Chego ao cetáceo. Finco a ponta do facão em sua carne e escalo, abrindo-lhe mais feridas no couro espesso. Chego ao dorso e me ponho de pé. Não seguro o sorriso ao notar a cara de espanto do Gringo.
Golpeio as cordas e, uma a uma, elas arrebentam. O espanhol esmurra a própria barca ao me ver revelar o truque. Viro-me para o outro lado e aceno para Teresa. No mesmo instante, ela entende meu desejo e dispara. O arpão risca o ar zunindo e crava-se na baleia.
É a minha vez de ditar as regras.
- Puxem!
E eles puxam.
- Remem! 
E eles remam.
Pouco a pouco, o gigante pende para o nosso lado e deixa-se levar pela inércia dos braços treinados ao esforço colossal. Os urubus nos acompanham de cima. A Trupe do Gringo vem em nossa rabeira, desarmada e impossibilitada de reagir.
Entretanto, as três embarcações vindas do lado Sul da Paulista chegam a cem metros de nós. Enganei-me. Não são barcas de madeira como as nossas. E sim duas lanchas e um iate branco entre elas.