quarta-feira, janeiro 23, 2013

Os Filhos do Fim - Parte 3


     Estamos em sete na barca. Os homens e Tereza – rechonchuda e forte feito um rinoceronte – saem para a caça, as mulheres e dois de nós ficam de guarda na base. Esta é a regra. Não podemos apostar todas as fichas de uma só vez e correr o risco de perder o topo do Overleven, este parco território que administramos. Como foi eu quem avistou os urubus, ganho hoje o benefício de não ficar com os remos - e opero o arremedo de arpão que instalamos à proa.
    Nossos dois vizinhos estão adiantados cerca de 400 metros de nós. Chegarão primeiro ao bando de urubus, inevitavelmente. Pelas cores e características das barcas, reconheço os grupos. Um é fraco, novo no ramo e com apenas quatro integrantes, venceremos facilmente. O outro faz meu estômago encolher. Trata-se da Trupe do Gringo, os principais caçadores da Paulista, liderados por aquele espanhol imbecil que por praga divina estava em São Paulo no dia do Armaggedon.
     Atrás de nós, duas outras embarcações também entram na caça e uma terceira acaba de cair na água. Vindas da Consolação, é provável que outras mais estejam subindo a avenida.
     - Júlio, estenda nossa bandeira! – ordeno ao imprestável, que quase deixou o remo afundar ao levantar-se. Nestas horas, é importante que um grupo respeitado como o nosso ostente sua marca entre os competidores, mesmo que percamos de momento a força de um homem. Os Tubarões do Paraíso estão na briga! 
     Lá na frente, noto o Gringo preparando o arpão de sua barca. Em sua trupe, cabe sempre a ele o disparo. E é sempre dele a maior bolada nos negócios. Sidney e os demais integrantes da outra barca também se movimentam para o abate. Novatos que são, atrapalham-se com atividades que para nós já são básicas.
      É nesta hora que me bate uma ideia. 
      Ideia muito arriscada, que provavelmente não dará certo.
      - Preciso de mais corda, Tereza. Agora.
    Debaixo de uma das bancadas, ela retira um bom tamanho de corda e me entrega. O calibre não é grande, mas deve servir. Com ajuda de Caio, desato o nó que prende o arpão à outra corda, emendo uma a outra com um nó aprendido nos meus tempos de escoteiro e então engato o arpão. O alcance do tiro deve ter dobrado. Hora de fazer o teste.
      - Parem de remar!
      Todos me olham estupefatos. Nenhum deles cumpre minha ordem.
      - Não me ouviram, imbecis? Larguem os remos!
     Agora sim. É preciso ser estúpido para manter o respeito. Com a barca livre de movimento, a mira é mais precisa.
     Calculo bem e disparo.
     O arpão risca o ar e leva consigo as duas cordas emendadas. Sidney e o maldito Gringo quase caem de suas barcas quando o conjunto passa zunindo no estreito vão entre elas - e segue com violência rumo ao amontoado de urubus. 
     Ouvimos um impacto seco. Surpresos, os pássaros negros batem as asas em desesperada revoada. O ser outrora encoberto revela-se e sacode a cauda com fúria sobre a superfície da água. O golpe acertou-o em cheio.
     - É mesmo uma baleia, Rafael. Belo tiro! – cumprimenta-me Júlio.
     Puxa-saco cretino. Claro que foi um belo tiro. Eu estou no comando.
     O animal sacode-se na água, que se mancha de vermelho. O arpão, contudo, está cravado fundo. Gringo vira-se para trás e vê nossa barca se aproximando, a toda força. Animados com o tiro preciso, os homens animam-se e remam com fúria. Vejo com prazer o espanhol xingar sua tripulação e desequilibrar-se por causa do rasante de um urubu assustado. Já Sidney e sua barca de amadores estão abaixados, com as mãos na cabeça e medo das aves pretas.
     - Vamos! É a nossa chance! – grito para os Tubarões.
     Invadimos o círculo dos urubus. A Trupe do Gringo e os juvenis da outra barca deixaram de remar e utilizam os instrumentos para afugentar os pássaros descontrolados. Não nos importamos com o tumulto e seguimos em frente, suportando em nossas cabeças o impacto das aves.
     Levanto-me. A posição é ideal. Apanho uma lança de abate e faço mira. É hora de um novo golpe, para minar as forças do animal marinho e tomar posse de sua carne. 
     Milésimos antes de efetuar o lançamento, sinto a lateral-direita de nossa barca se romper. Lascas de madeira voam pelos ares. Marcelo grita assustadoramente. Um arpão está atravessado em seu fêmur. Uma corda retesada liga o instrumento à barca da Trupe do Gringo.
    Teresa saca um facão da cintura e, em cinco golpes, arrebenta a corda. Ela analisa a perna do companheiro e conclui que é impossível retirar o arpão sem que o ferimento piore. Emanuel e Gustavo tentam com o próprio corpo tapar o rombo, mas não adianta. Aos poucos, a água invade a barca pela lateral – e ela afunda.
     O Gringo ri e avança.
     Eu engulo a raiva e raciocino. O imbecil agora está sem arpão. Em breve, a vantagem que conquistou pode se transformar em revés. Temos uma chance. Mas, será preciso que também joguemos sujo. Sinceramente, não me importo com isso.
     Enquanto nossa barca ainda não afunda, ordeno que os homens remem a boreste. Marcelo, incapacitado, recosta sobre o furo do casco. Eu me armo com duas lanças, enquanto vejo do outro lado o espanhol maldito amarrar uma corda a outra lança. Vai usá-la como arpão.
     Explico meu plano aos homens e todos se preparam. A força com que remamos rápido faz com que nossa barca fique lado a lado à de Sidney. Percebendo nossa aproximação, os amadores tentaram acelerar. O fato de serem em menor número e muito atrapalhados torna-os presa fácil.
     Levanto as duas lanças sobre a cabeça e giro as pontas em direção à testa de Sidney.
     - Abandone a barca! – grito, apenas.
     Um dos tripulantes, um baixinho infeliz, deixa de remar e me mostra o dedo do meio.
     No mesmo instante, arremesso uma das lanças. A prática que venho adquirindo faz com que o tiro seja certeiro – e destroce a mão do sujeito.
     Sidney me olha incrédulo. Volto a apontar-lhe a lança e repito a ordem de deixar a barca.
     Ele sabe que é mais fraco e despreparado. Assim, pede que os homens parem de remar e pulem na água. Assustados com o triste fim do companheiro, todos obedecem, inclusive o maneta. Sidney é o último a abandonar o navio e, homem do mar que é, o faz lançando-me uma praga.
     - Vá pra puta que te pariu, filho da puta!
     Solto um sorriso de canto de boca enquanto o vejo mergulhar nas águas da Paulista. Bem que eu gostaria de rever minha mãezinha, mas sabiamente ela morreu antes do Apocalipse. Os fins justificam os meios, caro Sidney. Desculpe ser tão agressivo com sua tripulação.
     - Mudem de barca, agora! – digo a meus subordinados.
     A troca é rápida, exceto por Marcelo, que não consegue levantar a perna e ficar de pé. Júlio e Alexandre tentam ajudá-lo, mas não mantém o equilíbrio e o deixam cair. Metade de seu corpo fica dentro d’água e ele força a beirada da barca recém-adquirida para tentar subir. Balançamos. Teresa quase cai. Sérgio derruba um remo. Estamos perdendo tempo. É preciso agir.
     Chuto os dedos de Marcelo e ele afunda na água. Todos me olham estupefatos e Júlio faz menção de pular para resgatar o companheiro.
     - Não ouse! – esbravejo.
     Marcelo reaparece e lanço-lhe um pedaço longo de corda.
     - Amarre-se a algum pedaço de madeira. Viremos resgatá-lo.
     Viro-me para o restante da tribulação e grito.
     - Apanhem os remos! Não podemos perder esta baleia para aquele verme espanhol! O animal é nosso por direito!
     O grupo se põe a trabalhar. Seguimos em frente. Meus métodos dão certo. Ao lado, nossa antiga barca afunda. Não importa. Temos uma nova – e um novo arpão.

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Os Filhos do Fim - Parte 2

      Toda vez que nossa barca cai no rio salgado e sujo que há um ano havia sido a Paulista, é inevitável voltar ao tempo – quando o vai e vem intenso dos veículos era a máxima imagem que tínhamos do caos. Inocentes, reclamávamos de barriga cheia.
     No novo mundo não há espaço para tal luxo. É a fome, antes de qualquer ambição, que governa nossos sentimentos. Quando o estômago se contorce de dor por falta de alimento, não há espaço para se querer outra coisa. Se houvesse mil reais na carteira e o grito da desnutrição ribombasse na barriga, as notas seriam o almoço do dia.
     Mil reais. Fora as comissões, o valor é metade do salário que eu ganhava para cruzar feito louco esta cidade. Era vendedor, dos bons. Daqueles que convenciam o cliente de que desembolsar o que não tinha era a melhor alternativa. Os bônus eram gordos, eu comprava presente para as crianças no shopping, descia à praia fim de semana sim, fim de semana não, cursava à noite minha segunda faculdade. Vida boa.
     É a habilidade para vender que me mantém em pé neste mundo louco de agora. De nós 13, sou eu o responsável pelo escambo de suprimentos com os outros edifícios. Voltei a rodar São Paulo inteira, ou melhor, os setores elevados que restaram da cidade. Sempre, claro, com um punhal escondido na cintura. Os novos tempos não são tão amigáveis.
     Andar assim por toda parte é também a forma de eu alimentar a esperança de reencontrar minha família. Filho único, sem pai, nem mãe desde a adolescência, os três são tudo o que me resta - se é que ainda estão vivos.
     Nós, os remanescentes da Paulista, especializamo-nos na pesca. Não porque algum de nós ou dos outros prédios vizinhos dominasse a arte. É que pela avenida, seja lá por qual razão, se tornou comum surgirem baleias perdidas, desgarradas do grupo. Em dias de muita sorte, duas ou três chegam a aparecer juntas.
     Provavelmente no rastro de um cetáceo gravemente ferido é que os urubus sobrevoam a área, em círculos. Em um universo em que comer carne é tão valorizado quanto já foi ostentar um pescoço recoberto de ouro, trata-se de uma mercadoria imperdível.
     - Remem, lesmas! Estamos atrasados! - gritei.
   Levou um certo tempo para a barca engrenar e mover-se com a velocidade ideal. Somos 13 sobreviventes do fim dos tempos, contudo, não somos amigos de infância. Nós nos toleramos para não morrer, estamos juntos por necessidade – e por ninguém mais ter família. É preciso paciência, por exemplo, para não estourar a cara de Júlio, sujeito folgado que antes das ondas gigantes curtia a vida de filho de usineiro. Depois que todo canavial do papai foi literalmente por água abaixo, ele se tornou meu encosto particular.
     Quando o tsunami emergiu pelos lados do Paraíso, por volta das 16h do dia 21 de dezembro, eu chegava ao último andar do Edifício Overleven, onde funcionava o escritório de uma empresa de suprimentos, minha cliente. Tiago estava do outro lado do balcão, entregando-me um documento. Sérgio bebia água no bebedouro ao canto, Cínthia estava ao telefone e Lara, Alexandre, Betina e Davi trabalhavam debruçados nos computadores.
     Os demais estavam dois ou três andares para baixo e tiveram tempo de subir antes de serem arrastados pela impressionante força das ondas. Joaquim e Emanuel estavam no terraço, dando manutenção na casa de máquinas do elevador. Estávamos no lugar certo , na hora mais errada de todos os tempos. Deus seja louvado por isso, apesar de consentir que a desgraça se abatesse sobre nós.
     Ainda hoje, se estou amuado a um canto, é porque me passa pela cabeça as imagens do Dia Final. O impacto violento que sentimos na estrutura do prédio e levou todos ao chão... O estrondo furtivo das águas inundando os andares inferiores em segundos, arrebentando paredes e retorcendo as estruturas... O grito das pessoas cujos corpos eram dilacerados pelo peso das ondas.
    Instintivamente, subimos. No terraço, encontramos os dois técnicos com as mãos nas cabeças, observando horrorizados o cenário. Até a Consolação, toda avenida estava alagada. Uma infinidade de carros e ônibus boiavam e outros muitos eram arrastados rumo ao final da Paulista. Incontáveis pessoas lutavam contra a correnteza, mas eram engolidas assim que uma nova onda surgia. Prédios mais baixos desapareciam e os mais fracos tombavam à medida que o nível d’água elevava-se.
     Por semanas, a avenida se tornou um rio imundo, empastado de lama, ferro e aço revirado, destroços, carros e milhares de corpos de gente e animais à deriva. Tantos que foi impossível resgatá-los para um funeral decente, abandonados para o banquete dos urubus, que nunca estiveram tão gordos.
     Aos poucos, contudo, a força da correnteza foi diminuindo e a linha d’água baixando até o nível atual. Hoje, a avenida mais parece um largo canal de água parada. O cheio de podridão ainda é forte, contudo, mais suave do que já foi um dia. Alguns veículos foram resgatados pelos sobreviventes e servem agora como abrigo. Eu mesmo divido uma Tucson com Davi, no alto do terraço. Antigo sonho de consumo este carro. Nada mais irônico. 
     Os corpos foram todos devorados. Aqui e ali restam apenas algumas ossadas e uma ou outra caveira que nos sorri como se nada de ruim tivesse ocorrido.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Boas de 2012


Vi que alguns blogueiros fizeram um apanhadão do que de melhor rolou em 2012.
Vou fazer aqui também. Não sei realmente se foi o de melhor que eu li/vi/ouvi, mas é o que rápido veio à cabeça como “coisa boa do ano passado”. O critério, então, é mais emocional que racional e comparativo. Chega de conversa e vamos lá!

HQ

Detective Comics nº 871 a 881 – The Black Mirror | Scott Snyder, Jock e Francisco Francavilla.  Resenha aqui no próprio Eita Peste! http://epeste.blogspot.com.br/2012/01/hqs-de-2012-detective-comics-871-881.html

Mangá

20th Century Boys | Naoki Urasawa. Li só o número um, mas já valeu bastante. É bem instigante.  Monster é do mesmo autor. É bom também? http://pt.wikipedia.org/wiki/20th_Century_Boys

Livro

Paraíso Líquido | Luiz Bras. Fiz uma resenha curtinha no fim deste post. http://epeste.blogspot.com.br/2012/11/mais-leituras.html. Este tem também um gosto especial, pois ganhei do próprio autor. Não porque eu sou legal, mas sim porque o Luiz Bras estava dando o livro a quem mostrasse interesse. Destaque: o conto Déjà-vu.

Filme

O Segredo dos Seus Olhos | Juan José Campanella. Disparado, o melhor do ano. http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Segredo_dos_Seus_Olhos

Game

God of War Collection. Comprei um video-game há exato um ano, depois de uns 12 anos sem ter um. A escolha pelo PS3 e não pelo Xbox 360 foi simples: ganhava quem tivesse este jogo, do qual já era fã só de ver vídeos no YouTube. http://pt.wikipedia.org/wiki/God_of_war

Música

The Great Mass | Septic Flesh. Uma banda de death metal da Grécia? Achei bem exótica a recomendação do Café de Ontem e mandei o torrent. Som de primeira, mas só se você gosta de barulho. Para mim, também lembra trilha sonora de video-game. http://cafedeontem.wordpress.com/2011/08/25/septic-flesh-the-great-mass/