segunda-feira, agosto 27, 2012

Porque a nova trilogia do Batman não vale o feijão que come (com muitos spoilers)



- A personalidade do Batman: ele nunca dá conta de resolver nada sozinho, leva bronquinhas do Alfred a toda hora, só apanha, ou foge, ou se mostra despreparado diante de determinada situação. Não é o Batman fodão que aparece nos quadrinhos e no desenho da Warner;

- O Batman NÃO usa armadura! Não sei onde inventaram isso (herança dos malditos filmes do Tim Burton), mas, mesmo dono de um gigantesco arsenal tecnológico, o Batman simplesmente não usa armadura. Ele não é o Homem-de-Ferro, nem um dos Cavaleiros do Zodíaco (apesar do papo de Dark Knight);

- Extensão da anterior: Batman usa capuz, não capacete. A máscara e a capa são uma coisa só. Capinha presa ao ombro e jogada pra trás é coisa de Super-Homem. A capa do Batman encobre todo corpo. Porque o cara é do mistério, oras! Sem falar no maldito pescoço imobilizado dos filmes dos anos 90 e do Batman Begins. O Batman também não é o Robocop;

- Vilões que contam seus planos megalomaníacos ao herói, com faz Ra's Al Gul no primeiro, antes de (tentar) foder com Gotham. Hoje em dia, isto só vale se for numa abordagem cômica, né? Num filme cuja pretensão é inserir o Batman em um cenário mais realista, não dá!;

- Batman é um cara que passa mais tempo observando a cidade do alto dos prédios - e, de lá, entra em ação - do que passeando a pé, de carrinho, motinho ou aviãozinho. O Batman é uma mistura de ninja com bruxo e detetive, e não um Power Ranger;

- Aliás, onde inventaram que o Batman tem carro, moto e avião desengonçados daquele jeito?

- Batman não tem namorada, mulher, muito menos "grande amor da vida". O cara é antisocial e psicótico, por isso, não se prende a ninguém (no máximo a uma relação turbulenta com a Mulher-Gato). Por isso, ele NUNCA iria ficar enfurnado oito anos na mansão, abandonando a "carreira" para a qual ele se dedicou desde que os pais morreram por causa de uma namorada;

- Continuação: Batman não romperia com Alfred por causa de uma cartinha. O cara suportou a tragédia da família, criou Bruce Wayne e aguentou toda chatice dele (na lógica do filme) de ficar enfurnado na mansão por oito anos! Outra coisa: a empresa não ia ficar abandonada daquele jeito, com tudo indo pro saco. Outra coisa: uma mera visita de um órfão que Bruce Wayne ajudou na infância, mais uma gostosa assaltante espertalhona, não iriam motivar o retorno da morcega velha. Se ele ficou tanto tempo fora, a motivação teria de ser MUITO mais pessoal;

- Você sai dos filmes torcendo para os vilões. Bane, Mulher-Gato, Ra's Al Gul e, mais que tudo, o Coringa, são muito mais interessantes do que ele!;

- Batman nunca está um passo à frente de todos. O fazem de idiota nos três filmes! Onde está o herói?;

- Tanto no fim do segundo, quanto no fim do terceiro, ele é dado como morto, é isso? O que salvou Gotham sem levar os créditos? Onde está a criatividade?

- O Robin não chama Robin, não tem o sobrenome Blake e muito menos era policial. De onde tiram isso, meeeeeu Deus?;

- Furos mil de roteiro, principalmente o terceiro. Aliás, que lenga-lenga longa este filme! Dava pra cortar uns 40 minutos fácil!;

- Bane, de mega terrorista doido e sem um pingo de amor à humanidade é transformado em um bobão apaixonado, mero cumpridor de ordens. Quebram o personagem ao meio, mais do que ele fez com o Batman;

- O Batman NÃO tem aquela voz! Ela NÃO dá medo! Ela DÁ vontade de rir!;

- Se era pra Talia explodir Gotham só pra honrar a missão do pai dela, porque não fez isso desde o começo??? Pra que todo aquele blábláblá do Bane sobre o mundo sem governo se o próprio na verdade estava sob controle da Talia?;

- O filme parece que fica constrangido em mostrar o Batman! Nos três filmes, que juntos devem ter 8 horas e tanto, ele não deve aparecer 30 minutos!;

- Batman NÃO voa, como ocorreu ao final do primeiro;

- Tanto o segundo quanto o terceiro mostram um Batman em declínio, sem o prestígio da população. Como o espectador vai gostar do herói se os filmes não abordam a fase em que ele era o rei (se é que ela existiu, dentro da lógica da trilogia)?;

- História confusa não é história complexa. E história complexa muitas vezes não é sinônimo de qualidade. A trilogia Batman paga de complexa, mas é só confusa e sem embasamento. Simplesmente porque os criadores não deram bola ao lado heróico do protagonista, ficaram naquela de mostrar que o Batman na verdade é um lado do caráter de Bruce Wayne. O playboy foi supervalorizado, mas ele não tem um pingo do carisma do seu alter-ego. Não é à toa que nos melhores quadrinhos diz-se que a verdadeira face de Bruce Wayne é o capuz do Batman. Não puseram o foco nisso. E o Batman dos cinemas não passou de um bundão.

domingo, agosto 12, 2012

Põe na tela, Latino! - Parte 1


     Treze de janeiro de 2012, nove horas da noite. Sexta-feira. Jardim Bongiovani, Presidente Prudente, São Paulo. Guto já estava há duas horas trancafiado quando levantou-se da cama, calçou o tênis cheio de molinhas e abriu a porta do quarto. Estava decidido a começar uma nova carreira – e a data era propícia.
     Fez xixi, escovou os dentes e penteou o cabelinho chanel. Em seguida, foi até a cozinha, abriu a gaveta das facas de churrasco e escolheu a mais afiada. Guardou-a dentro da mochila, despediu-se com beijinhos nas bochechas dos pais que estavam vendo TV na sala, montou no Golf 2.0 e saiu.
     Ligou o rádio na 98 e pôs-se a pensar no que faria a seguir, ao som de Michel Teló e o hit do momento. Quem seria sua primeira vítima? Alguma puta desavisada da Avenida Brasil? Uma bichete de fonoaudiologia do Campus I da Unoeste? Uma vendedora de sapatos do Prudenshopping? Quem sabe uma pretensa atleta de shortinho de lycra do Parque do Povo? Delícia, delícia, assim você me mata!
     A indecisão sempre fora um obstáculo para Guto. Aos 27 anos, dentes brancos e hálito puro, barba bem feita, pele sem rugas, cabelo dividido ao meio e peito depilado em cera quente, o rapaz só sabia o que era esforço ao levantar 45 quilos no supino. Só a academia dava-lhe calo nas mãos.
     Fizera jornalismo por dois anos, e largou. Foi para direito, fez tudo errado, tomou bomba e desistiu. Fez intercâmbio, foi para os Estados Unidos, porém voltou antes do tempo, com saudade dos pais (esta, pelo menos, foi a sua justificativa). Agora, cursava há um ano medicina, achava uma bosta, mas, adorava as aulas de anatomia - e possibilidade de dissecar cadáveres.
    Era o bisturi entrar na carne endurecida que a felicidade tomava conta do coração de Guto. Qual era a graça? Ele não era bom em explicar sensações em palavras. Contudo, seus olhos brilhavam, as mãos suavam e um calor bom lhe chegava à genitália. Melhor explicação não havia nos dicionários!
     Quão bom seria, então, perfurar alguém vivo?
     Por um mês aquilo rondou a cabeça de Guto.
     - Um serial killer sabe a resposta! – concluiu, sem considerar que ele poderia simplesmente se tornar um cirurgião sádico e açougueiro, como existem muitos por aí, camuflados pelos jalecos brancos.
     Ele girou o dial e caiu na 101, que transmitia uma exótica homenagem ao velho herói sertanejo, Sérgio Reis. Menino da Porteira logo o fez lembrar do passado, no rancho do avô, à beira do rio Paranapanema. Mas, foram os versos da canção seguinte que inspiraram seus próximos passos.

     Não interessa se ela é coroa. Panela velha é que faz comida boa!

     - É isso! – berrou Guto de dentro do carro, chamando a atenção das mocinhas que estavam em frente ao Tio Vavá.
    Imediatamente, ele acelerou o Golf, virou à direita na Manoel Goulart até cair na Celestino José Figueiredo, em meio ao Parque do Povo. Numa ruela próxima, avistou uma fileira de carros estacionados e, logo à frente, o prédio que era seu destino. O Clube da Terceira Idade. Não pode conter o sorriso diante da esperteza de seu plano.
     Vovós são alvos fáceis, pensou.
     Era noite de baile, casa cheia, animada pela renomada dupla de desconhecidos Oliveira & Martinez. O modão comia solto e os casais já riscavam o chão quando Guto chegou à entrada do salão. Ficou sem jeito, era um dos poucos com menos de sessenta anos no ambiente e logo procurou o bar para desanuviar a tensão.
     Pediu então uma cerveja e recostou em um cantinho escuro, para observar. Qual delas? Qual daquelas senhora lhe daria a fama, as capas do Imparcial e do Oeste Notícias, bem como um novo e excitante rumo profissional? Aliás, qual apelido a imprensa lhe daria? Matador de Velhinhas, igual aquele filme chato com o Tom Hanks? Assassino de Vovós? Quem sabe o Esquartejador de Idosas?
     - Ou ainda o Exterminador da Terceira Idade? – pensou alto.
     Um convite, no entanto, o fez voltar para si.
     - Quer dançar?
    À sua frente, estava uma dona dos seus setenta anos, magra feito a desnutrição, enviada em um vestido vermelho de bolinhas verdes e com os cabelos brancos presos em infinitos grampos e jogados para trás.
    Antes que ele pudesse responder, ela o agarrou pela cintura e arrastou-o com surpreendente facilidade para o meio do salão.
    - Olha o que eu encontrei escondido perto do bar! – anunciou às colegas de baile, que logo ficaram interessadas, loucas para também tirarem uma casquinha daquele pão.
     Guto tentou se desvencilhar da dança, mas não tinha mais jeito. Então, relaxou. Se era uma vítima que ele queria, uma vítima o encontrara – quase um sinal da Providência! Além de uma oportunidade única e um disfarce que lhe permitia contato direto com a futura defunta.