Sábado, Janeiro 14, 2012

Ponto G

      O cansaço de caminhar dias e dias pelos terrenos acidentados da ilha, somado às emoções devastadoras dos últimos instantes, de repente chegaram-lhe às pernas. Ele dobrou-se como pode, lentamente, e se sentou em um degrau da popa avacalhada do ainda glorioso HMS Beagle. O navio rasgava o mar e seguia viagem.
    O olhar perdido na distância condenava um cérebro em nuvens, adensadas pelas últimas palavras da amiga, que ele deixara a contragosto na ilha. Nunca mais iriam se ver.
               
      “Darwin, agora é só você. Não vai adiantar. Chorar vai fazer-me sofrer.”

      Tais foram as três últimas frases do diálogo entre o inglês e a tartaruga do pescoço comprido. Um mês de intensa companhia fez com que um forte sentimento os conectasse. Era o amor, que veio como um tiro certo naquele lugar onde já sabemos que ele atinge – e eu não falo do coração. Assim, pelo menos, nosso querido e estudioso aventureiro julgava as coisas.
      A conversa infeliz começara em tom professoral, enquanto os dois faziam um último passeio.
      - Olhe ao redor da ilha, Darwin querido, e repare quantas tartarugas somos e como cada uma de nós é diferente uma da outra. Você poderá entender muita coisa ainda obscura – alertou-lhe a amiga.
     O naturalista, contudo, não conseguia ler as entrelinhas. O amor já se tornara a medida de todas as coisas e, fora dele, nada existia. Por isso, respondeu.
     - Eu só queria ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer...
   A tartaruga olhou-o com cara de quem não entendera bulhufas. Ainda assim, prosseguiu com os conselhos, que julgava de fundamental importância para serem perdidos com as embromações sentimentais do amigo. Com a cabeça, ela indicou um grupo próximo de passarinhos.
    - Repare nos tentilhões e você vai ver como cada um deles tem um formato distinto de bico. Não é por acaso. A forma foi adaptada ao longo dos anos de acordo com a finalidade adquirida por cada um. Tais mudanças foram repassadas de pai para filho, até hoje se configurarem assim.
    A sabedoria inata da tartaruga, que discursava como verdadeira doutora no assunto, passava batida ao cientista. O ritmo encantador e a harmonia suave de sua voz, no entanto, hipnotizavam o jovem. Foi então que ele abriu o peito mais uma vez e arriscou.
     - Eu não posso deixar que o tempo te leve jamais para longe de mim...
    Se os tivesse, a tartaruga teria dado de ombros. Como carregava um casco imenso no lugar e, por isso, estava acostumada ao peso absurdo das responsabilidades, ficou indiferente. O pobre inglês julgou aquilo como desprezo e sentiu a agonia aumentar.
     - Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não esp...
    A paciência que todo quelônio naturalmente parece ter tinha se esgotado na tartaruga de nossa história. Ela não queria ir para lugar algum, gostava das coisas e dos seres únicos da ilha e não a trocaria jamais, por sentimento algum.
    Era justamente tal singularidade que ela gostaria de transmitir ao teimoso naturalista, que não enxergava o valor do conhecimento lhe passado de graça em mãos.
    - Darwin, querido, abra teus olhos. O pior cego é aquele que não quer ver. Eu quero que risque meu nome da tua agenda. Não vou embora com você.
   Então, ela completou o recado com as palavras que agora ecoavam na cabeça do cientista, como se fossem um bis.

     “Darwin, agora é só você. Não vai adiantar. Chorar vai fazer-me sofrer.”

     Obediente, o pobre inglês engoliu as lágrimas para manter um rascunho de força e não desabar de vez em frente à amiga. Em seguida, recolheu lentamente as tralhas científicas que espalhara ao longo do terreno acidentado da ilha e embarcou a contragosto, não sem antes olhar para trás – e ver a tartaruga voltar para casa, na companhia de outra tartaruga, macho.
     O HMS Beagle desancorou e, devagar, tomou rumo do mar aberto, até navegar solto, impulsionado pelo vento destinado aos homens de boa fé. A tripulação, toda no convés, trabalhava com gosto de ganhar o oceano outra vez. Cada légua percorrida era uma légua a menos no caminho de volta para casa.
     Apenas um tripulante estava quieto, amuado num degrau da popa do navio explorador. O peito esmagado fazia o inglês rejeitado pedir por ajuda. “Quem vai me curar o coração partido?” - perguntava ele aos seus botões, sem ouvir resposta que o satisfizesse.
   À medida que o brigue ganhava mar aberto, o cientista manteve fixo o olhar em um único local: no horizonte, a ilha tornava-se um borrão disforme. Aos poucos, parecia diminuir, até se tornar um ponto perdido na vastidão.
    Dele, nosso amigo não despregou os olhos, até que só houvesse o azul profundo do encontro entre o céu e o oceano. Seu coração acabava de afundar.
   Tomado por súbito desfalecimento, poderoso como um sonífero, o inglês cerrou as pálpebras, entregando-se ao infinito abatimento.
     Em último ato de desespero, ele juntou as mãos em oração, e pediu à guardiã de seu desespero.

     “Ilha, descansa meus olhos, sossega minha boca, me enche de luz!”

     Tal como se fosse atingida por um meteoro da razão, a mente do naturalista levou um baque e quase não resistiu à violência do impacto. Uma ideia sem precedentes acabava de se instalar sob o crânio, suficiente para trazer o gênio de volta à vida.
      Finalmente, ele compreendia as palavras da tartaruga.
      E, com elas, mudaria o mundo para sempre.

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