Quarta-feira, Julho 20, 2011

Alfa e Ômega - Parte 4 (Final)

Na imensidão da batalha que se desenrolava em minha frente, vi São Jorge cortar de uma só vez as cabeças de 34 demônios arruaceiros. De cada uma delas outros 34 surgiram e novamente a cabeça de cada um deles foi arrancada. A cada golpe do santo, o processo repetia-se, até o momento em que Jorge entendeu que um deles eram todos eles, não cortou mais nenhum e venceu.
Também vi Mammon roubar para si os olhos da tigela de Santa Luzia, enquanto diabos traiçoeiros espancavam-na até o esgotamento. Vi São Sebastião retirar as setas do próprio corpo e espetá-las nas narinas do avarento até que ele devolvesse as duas relíquias.
Santa Clara abriu o céu para que os anjos pudessem lutar na luminescência. Eu vi Caliel sair detrás das nuvens e perfurar com sua lança o coração maligno de Moloch, que tombou sobre seus comandados. Demônios covardes bateram em retirada, abrindo um vão no alinhamento do exército infernal. Um a um, os desgarrados foram caçados por Uriel, Zacariel e Orifiel, que lhes arrancaram os chifres e ostentaram-nos à turba do Paraíso.
Já Yesalel não teve a mesma sorte. Cercado pelas almas atormentadas dos mais terríveis bandidos, vi quando ele foi derrubado, imobilizado e depenado. Suas asas, depois, foram quebradas a golpes de alicate. Sem poder voar e fugir, hordas de vampiros avançaram e banquetearam-se com seu sangue de extrema pureza.
São Fernando e São Romão horrorizaram-se com a cena e partiram para o ataque, mas foram aleijados a um só golpe do tridente de Baphomet. Harahel, Ieialel, e o sábio Ayel afundaram ao mesmo tempo as espadas na carne espessa do demônio, que tombou emborcado. Os três, porém, foram reduzidos a cinzas quando Furfur proclamou a magia do fogo e uma rajada incandescente atingiu-lhes a face.
E um a um eu vi anjos e demônios, santos e dementes, deuses e monstros caírem uns sobre os outros.
Vi Jeliel ter a espinha quebrada pelas mãos fumegantes de Ukobach. Vi Santa Filomena ser perseguida, capturada, morta e triturada em pedaços pela Legião. Vi São Severiano cair no abraço sensual de Astaroth e morrer implodido pela própria lascívia. Vi Menadel ser partido ao meio pelo serrote de Malphas e Melek Taus.
Vi os pombos de São Francisco terem as cabeças arrancadas pelo dentes de Izmaichia. Vi São Pedro novamente ser dependurado de ponta cabeça e açoitado até o fim por Abigar e os outros dois demônios de Fleuretty. Vi São Jorge ser esquartejado pelo dragão que a vida toda perseguiu. Vi Gabriel caminhar sem rumo com os intestinos à mostra, expostos depois de mordida de Zaebos.
E todos os bons caíram.
Também vi Asmodeus ter seu órgão proeminente queimado pela cruz de Santo André. Vi o grande general Satanáquia ser encurralado por Ariel, Umabel, Poiel e São Longuinho e morrer trespassado pelas estacas do quarteto. Vi Leviathan ser amarrado e perecer com o calor do próprio ódio, despertado pelas preces de Santa Elvira.
Vi Yemaye ter a cabeça arrancada pelo escudo de São Miguel Arcanjo. Vi Efialtes cair morto esfolado depois de ser arrastado pelo cavalo de Santa Joana D’Arc. Vi o grão-duque Valafar fugir de medo do olhar sereno de Santa Catarina. Vi sete mil pelotões do Inferno evaporarem instantaneamente após um único gesto da mão direita da Virgem Mãe Superiora.
E todos os maus caíram.
Em meio a devastação dos corpos de toda existência, apenas dois resistiram. O Messias e a Estrela da Manhã, parados frente ao outro.
Sem dizerem nada, ambos sacaram as espadas e atacaram ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo, a lâmina perfurou a carne de cada um, esguichando sangue. No chão, o líquido vermelho dos inimigos misturou-se e escorreu pelas frestas.
O Cristo caiu. Lúcifer continuou de pé.
Impressionado com a vitória, o anjo decaído urrou satisfeito. O som maligno ecoou nos quatro cantos do mundo, mas ninguém ouviu.
Apenas eu.
Deixei as sombras onde me instalara e me aproximei sorrateiramente pelas costas do demônio. No momento apropriado, saquei meu punhal afiado e tive prazer ao vê-lo penetrar as costelas de Satã - e atingi-lo no coração.
Seu grito de satisfação transformou-se em lamurio de morte. Demente e consternado, Lúcifer debateu-se e tentou se virar para conhecer a face daquele que o assassinara, mas não conseguiu. Apoiado nos joelhos com minha arma espetada nas costas, antes de tombar completamente, ele olhou pela última vez a imensidão do Céu, para onde nunca mais voltaria.
O silêncio que se seguiu era a voz, enfim, do sossego da Terra. Não mais dor, não mais sofrimento. Não mais os opostos. Olhei ao redor e não vi ninguém. Nada se movia. Nem mesmo a menor das bactérias queimava energia.
A paz tomou conta de tudo.
E tudo agora era meu.
Apenas meu.

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