Quando a Estrela da Manhã iluminou o céu, cidades imensas já haviam apodrecido, cobertas de peste, lama e sangue dos abatidos. Países cujas lendas eram tão antigas quanto os próprios seres que se debatiam nos ares tombaram como bebês que mal articulam as pernas. Povos exploradores de outros povos desapareceram em um único olhar satânico.
Vi famílias retiradas à força de suas casas serem chicoteadas até a morte para que seus lamentos reforçassem a energia das tropas infernais. Vi homens que já foram de bem matarem mulheres e crianças por causa de um pedaço de pão. Vi garotos esquálidos assassinarem aos murros uns aos outros por uma tigela de arroz azedo.
Toda sorte de loucos, dementes, psicopatas e deturpados ganhou as ruas e atirou-se sobre as multidões de desesperados. Mulheres foram estupradas por grupos de cinquenta homens, cuja sanidade havia sido varrida pelos desejos. Pais copulavam com os próprios filhos, instilados por serpentes de fogo hábeis na arte do convencimento.
Florestas cujas sombras abrigavam quatrilhões de seres estorricaram quando o suor dos demônios alados tocou as folhagens. Animais sequer catalogados pela espécie humana fritaram e morreram aos berros. Os fugitivos eram capturados e servidos de alimento aos famintos, que mastigavam a carne crua, antes mesmo de o bicho morrer por completo.
Nem mesmo os vermes e larvas responsáveis por limpar a terra dos excrementos sobreviveram na segurança do lodo e das dobras do solo. A desgraça os encontrou e exterminou a todos, restando aos cadáveres o eterno relento.
Rios caudalosos pouco a pouco tiveram o fluxo interrompido por corpos acumulados uns sobre os outros, do leito à superfície. Peixes e outros dependentes do meio líquido morreram asfixiados, por falta de oxigênio.
Nos desertos, a multiplicação de todos os grãos de areia uns pelos outros se tornou inferior à quantidade de anjos e demônios para sempre caídos. As calotas polares derreteram-se com o calor provocado pela nova movimentação de seres no mundo, inundando praias dos sete mares e afundando os mais importantes centros de civilização.
Dentro da esfera terrestre, os átomos dos 118 elementos sentiram as leis quânticas que regiam seus alinhamentos se romperem. Onde havia fogo, surgiu água. Onde havia água, brotou o vento. Onde havia vento, cresceu a terra.
E do caos da destruição, um novo universo se formava.
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