Assim que o raio divino estourou a crosta terrestre e penetrou por entre as diferentes camadas de rochas e sedimentos até sair do outro lado, em meio às chamas do Inferno, Lúcifer sorriu. Já era hora de a Estrela da Manhã voltar à superfície e brilhar novamente nos céus.
Das galerias, o som dos tambores e atabaques começaram a ribombar, marcando o ritmo dos preparativos. Um trilhão vezes um trilhão de almas atormentadas gritaram a dor de estarem em meio a tanta gente e ao mesmo tempo sozinhos. A balbúrdia infernal precisa de sofrimento como combustível.
Demônios da pele rubra afiavam nos próprios dentes as lanças da batalha. Monstros desfigurados pelo pecado cheiravam a excitação no ar e expunham uns aos outros suas vergonhas intumescidas. No grande salão, capetas do chifre pequeno e sorriso largo açoitavam espíritos perdidos, que em vida traíram, trapacearam, enganaram, usurparam, ou pegaram escondido.
Reunida em torno do altar de sacrifício, a alta cúpula do Inferno traçou o plano de destruição do mundo e retomada do Paraíso. Azazel foi o primeiro a ascender pela abertura, arrastando consigo um pelotão formado por almas de torturadores e assassinos.
Ao ver o primeiro bando sacudir as asas pontiagudas rumo à superfície, todo amontoado de moradores do submundo inflamou o peito e gritou injúrias ao Céu.
Em meio às ofensas à divindade, tridentes e tochas acesas foram levantados acima das cabeças. Demônios de chifres enormes e pontiagudos vomitaram sangue e espalharam a substância um no outro. Bruxas decrépitas quebravam os próprios ossos e os entregavam como armas às almas penadas. Vampiros dementes mordiam uns aos outros, com fome.
Os portões das catacumbas se abriram e libertaram as treze bestas cegas, aprisionadas nas trevas desde o Princípio. Descontroladas e aos berros de dor, carregavam consigo o que quer que lhes tomasse o caminho, até subirem pela abertura.
Então, dos quatro cantos do Inferno, os seres rebaixados abriram asas e rumaram ao mesmo tempo para a superfície. Os que não podiam voar eram carregados. A passagem ficou pequena para a quantidade de infelizes, que se espremiam uns aos outros até os sedimentos rochosos cederem e o vão alargar-se.
Os mais violentos terremotos rasgaram os cinco continentes. Explosões de lava e enxofre emergiram, abrindo todas as portas da devassidão. Expelidos em alta pressão, demônios, capetas, espíritos, monstros e entidades de todos os círculos infernais enfim retornavam à crosta da terra.
Peste, Guerra, Fome e Morte foram autorizadas a montarem seus cavalos multicoloridos e partiram. Leviathan, Belzebu, Asmodeus, Belphegor e Mammon, cada um carregando no estômago cheio seu próprio pecado, também rumaram para cima.
Na imensidão do Inferno vazio, como nunca antes presenciara, Lúcifer sentiu-se livre. Não gostaria de ver novamente aquele lugar. Então, vestiu seu elmo amassado na cabeça, abriu as asas maltratadas e levantou voo. Estava confiante para retomar o que pensava ser seu - por direito.
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