terça-feira, maio 31, 2011

A Viagem sem Volta - Parte 16 (Final)

Do outro lado do mundo, enquanto ouvia as ondas do Leste quebrarem na areia e aguardava a água morna tocar seus pés, Fredo gargalhou genuinamente quando por acaso um dia chegou às suas mãos o informe de que ele era fugitivo do reino.
Em seguida, o velho sábio beliscou um camarão, tomou um belo gole de água de coco e ajeitou o shortão florido no corpo. Pensou em levantar e dar um mergulho no mar imenso à sua frente. Porém, mudou de ideia, recostou-se na cadeira, fechou os olhos e disse, em meio a um bocejo.
- Que preguiiiiiiçaaaaa!

A Viagem sem Volta - Parte 15

Irado, o rei cuspiu na correspondência que acabara de ler, amassou a folha e atirou-a na cara do mensageiro. Em seguida, ordenou ao sujeito que tomasse nota. “Irmão Fredo. Procurado por desobediência. Vivo ou morto. Recompensa: dez moedas de ouro.”

A Viagem sem Volta - Parte 14

“Vossa Majestade, Carlos Charles 3º”
“Mandaste-me para a Zástras, a Cidade dos Loucos. A viagem foi entediante até o meio do caminho, quando decidi virar à esquerda ao invés de seguir jornada. Foi mal. Aquele abraço!”
“Irmão Fredo”
“PS: Vossa Majestade me deve um par de sandálias.”

A Viagem sem Volta - Parte 13

O estalajadeiro tentou correr para a cozinha quando viu o irmão descer esbaforido as escadas. O homem não está com uma cara boa e vai sobrar para mim, pensou o sujeito. Contudo, não houve tempo de fugir.
- Estalajadeiro, aguarde! Peço que me faça um favor – disse Fredo, estendendo-lhe uma folha de papel dobrada em quatro partes, mais duas moedas de bronze.

A Viagem sem Volta - Parte 12

Num pulo, o irmão estava de pé ao lado da cama.
Seu coração batia tão forte e acelerado que era possível vê-lo mexer por baixo do manto. Os olhos esbugalhados e o suor escorrendo pela testa provavam que a visão do sonho não havia sido das melhores.
- Glória, leões da Primavera Eterna! Foi apenas um pesadelo – agradeceu, levando as mãos acima da cabeça. Afinal, não era todo dia que, de repente, um ponto de luz saía voando e transformava-se a um palmo do nariz no rosto desalinhado da víbora da sua ex-mulher!
Aquela viagem estava fazendo muito mal ao pobre irmão Fredo. E isto Vossa Majestade não queria saber!
Dores, saudade, sono, frio, cansaço, Zástas e agora Jordana Fii... Era demais para um velho só! Por isso, o sábio tomou uma decisão.

A Viagem sem Volta - Parte 11

Desta vez, entretanto, o sábio não estava entre as irmãs Petra e Judi. Ele carregava um candelabro na altura dos olhos e caminhava por um corredor escuro, com dificuldade. As paredes eram feitas de pedaços mal empilhados de pedra e não tinham decoração nenhuma. O irmão guiava-se mais ou menos como alguém prestes a cair no abismo.
Aos poucos, porém, um ponto luminoso apareceu ao longe. No meio do breu, aquilo se transformou em um farol - e para lá Fredo seguiu.
O barulho de suas sandálias arrastando-se no chão ecoou pela galeria e despertou ratos escondidos. Os bichos saíram detrás das paredes e passaram a caminhar entre os passos do velho.
- Venham, venham! – uma voz feminina e sedutora começou a sussurrar.
O chamado vinha na direção da luminescência. Assim que o ouviram, os roedores saíram correndo, um pulando sobre o outro, em atropelo.
Sem saber direito que atitude tomar, Fredo resolveu imitar o grupo e também apertou o passo. Ratos esgueiravam-se por suas canelas e vez ou outra o irmão sentia um deles sendo destroçado por seus pés.
À medida que se aproximava, o brilho ficava maior e mais intenso. O sussurro tornou-se mais claro e audível, e agora relatava maravilhas sobre um mundo estranho, em que dinheiro e comida não eram exclusividade de poucos.
- Venham, venham! E vocês verão com os próprios olhos e sentirão com a própria pele, e lamberão com a própria língua e...
Pelos deuses do Oeste! Aquele sotaque, aquele jeito pausado de pronunciar as sílabas não era avulso aos ouvidos de Fredo. Quem era mesmo que falava daquele jeito?
A dúvida foi tanta que ele parou no meio do caminho e nem se importou com os ratos trombando em seus calcanhares. Quem era que discursava?
- Sou eu, querido! – gritou a luz.

A Viagem sem Volta - Parte 10

Fredo se enfiou debaixo da coberta e sentiu seu corpo recuperando o calor - uma das melhores sensações do mundo! O objetivo era escrever o relatório no sossego do quarto o mais rápido possível, arrumar as tralhas e seguir trajeto, pois já estava atrasado.
Contudo, para que servem os planos senão para serem descumpridos? Em dois minutos, Fredo já roncava e sonhava.

A Viagem sem Volta - Parte 9

Ao abrir a porta, a claridade cegou Fredo por instantes. Além disso, uma baita ventania o atingiu de frente. Uma folha morta chegou a grudar em sua testa e ele foi obrigado a voltar para dentro.
- Que tempo ruim! Pelos deuses! – disse o sábio, limpando as mangas longas do manto.
Desanimado com a meteorologia, o irmão recolheu os pertences que deixara sobre a mesa e voltou para o quarto, subindo cada degrau da escada como se fosse o último desafio da vida. Lá do alto, ele viu o estalajadeiro observando-o com certo receio. Resolveu que era melhor alertar o sujeito.
- Não se preocupe. Logo desço para continuar a droga da viagem.

A Viagem sem Volta - Parte 8

- Irmão! Caro irmão! Por favor, irmão! Acorda!
Sem resultado, o estalajadeiro começou a sacudir o ombro do velho, a princípio com delicadeza, depois com certa energia.
O sábio despertou num pulo, com os olhos estatelados e furiosos.
- Danação, homem! Já estou de pé! – esbravejou Fredo, que não resistira mais uma vez à tentação de um cochilinho e babava sobre as páginas do diário.
Com medo da reputação de feiticeiro poderoso do irmão, o estalajadeiro voltou às pressas para a cozinha. O pobre apenas cumpria ordens do próprio Fredo de despertá-lo sob qualquer circunstância e estava até recebendo um adicional por isso.
Depois de se acalmar do susto, Fredo ficou com remorso e gritou um “obrigado” em direção ao barulho de pratos e panelas.
Em seguida, piscou rápido seis vezes, limpou a vista, espreguiçou-se demoradamente e decidiu que precisava ver o sol. Então, deixou o refeitório rumo ao jardim.

A Viagem sem Volta - Parte 7

Sem se levantar do trono, sentado com o habitual desleixo de quem simplesmente manda, o rei apreciou cada passo acanhado do irmão Fredo ao cruzar o pátio principal do castelo. Não ia lá muito com a cara do velho, sempre envolvido com mistérios e segredos que ele desconhecia. Porém, tinha de admitir que o homem era confiável e fiel às obrigações. Por isso, não hesitou em convocá-lo para a missão. Além do mais, seria engraçado.
Assim que Fredo aproximou-se à distância de um aperto de mão, Carlos Charles 3º sorriu de canto de boca, retirou um papel do bolso e entregou-o ao sábio.
- Caro irmão, preciso que me traga esta encomenda de Zástraz – ordenou o rei.
Só de ouvir o nome da cidade, Fredo sentiu um calafrio. Ao ler a folha timbrada, então, o irmão quase caiu para trás. “Poção do Dragão Maior + Feitiço do Cisne Cósmico a pedido de Vossa Majestade Carlos Carles 3º, soberano do Oeste, à maga sapientíssima Jordana Fii. Urgência na entrega e pagamento após recebimento”.
Jordana Fii. A ex-mulher e ex-sócia do irmão Fredo.  

A Viagem sem Volta - Parte 6

Vossa Majestade, não sei o que vos escrevo. Caso seja de extrema importância para Vossa Majestade saber o que vi e vivi pelo caminho, por que Vossa Majestade não veio comigo???

Como seria bom escrever isso! Mas, Fredo não o fez. Afinal, não queria morrer enforcado. Carlos Charles 3º era jovem, porém, não tinha senso de humor. Além disso, tratava-se de um relatório oficial, um documento.
A questão é que, para quem chega aos 475 anos, é difícil se impressionar com alguma coisa. Por aquele mesmo caminho o irmão já havia viajado sem exagero pelo menos umas 70 vezes. Em Zástras ele já até morara durante dois curtos anos.
A cidade, aliás, era terrível, sem charme, sem um bar decente para se sentar e perder uma tarde inteira olhando as moças bonitas rebolando para lá e para cá...
Moça bonita, aliás, era o que Zástras menos tinha. A cidade concentrava a maior quantidade de dragões e canhões por metro quadrado do Oeste! De longe, parecia até briga de um navio pirata com a turma do RPG...
- Não é à toa que chamam o lugar de Cidade dos Loucos – pensou alto o irmão Fredo, sem perceber.
- Desejas mais alguma coisa, bom irmão? – perguntou o dono do lugar, assim que ouviu Fredo resmungando.
Sem vontade de ter as divagações interrompidas, o sábio cogitou mandar o estalajadeiro para aquele lugar ao Sul. Contudo, desta vez guardou para si o pensamento e respondeu simplesmente.
- Obrigado. Não se incomode comigo.
Para afugentá-lo de vez, o irmão fingiu entreter-se com o diário. Entretanto, por coincidência, a página aberta foi a do dia em que recebera a missão para ir a Zástras – e trazia em destaque o nome infeliz da pessoa com quem Fredo tinha de se encontrar. Não seria fácil. 

A Viagem sem Volta - Parte 5

Perdido nas próprias lembranças, o velho irmão não percebeu, mas escorava a cabeça e olhava distante, como se pudesse vê-las no horizonte, com um sorriso no canto da boca. O barulho da cozinha, porém, despertou-o.
Essas histórias boas da infância o rei provavelmente também não gostaria de saber...  Ah! A chatice da obrigação! Era hora de trabalhar.

sábado, maio 28, 2011

A Viagem sem Volta - Parte 4

Fredo tomou um gole e achou o gosto bom. Leite era a bebida dos fortes, dizia seu tio. Mesmo com toda sabedoria do mundo, o irmão não conseguira decifrar o que ele queria afirmar com aquilo. Talvez o homem fora uma criança que mamou no peito até os sete anos, já que era grande feito um rinoceronte... E sem querer, Fredo sentiu saudade da família.
Antes de ingressar no Centro de Estudos Avançados de Alta Magia da Sociedade dos Múltiplos Sábios do Oeste (CEAAMSMSO) e abandonar para sempre o ninho, o irmão viveu até os 14 anos numa pequena chácara, com pai, mãe, 12 irmãos, três cachorros e um porco-espinho que não dava muita bola para ninguém.
A casa naturalmente estava sempre cheia e, por causa do exótico bicho de estimação, era preciso sempre andar esperto e ver onde se pisava. Fredo era o mais calado da trupe e também o mais observador.
Gostava em especial de reparar nas desventuras de seu irmão Termeso, o nono em ordem decrescente. Era um sujeito amalucado desde o berço que certa vez dependurou-se de ponta cabeça no alto de uma árvore só para saber qual era a graça de ser morcego. Caiu e quebrou a clavícula e no hospital disse a Fredo:
- Não deu tempo de aprender a voar!

A Viagem sem Volta - Parte 3

Era dia de escrever o relatório. O combinado com Sua Majestade Carlos Charles 3º era este: a cada sete dias, as novidades do percurso deveriam ser contadas em pormenores. Por isso, irmão Fredo foi para o refeitório levando debaixo do braço o diário, bico de pena, e uma série de folhas em branco.
- Leite frio, por favor. E bolachas – pediu o sábio.
Por onde deveria começar? Relataria tudo linearmente ou enfocaria os momentos mais importantes?
Bah! Fredo franziu a testa e coçou a barba espessa. Quais momentos haviam sido importantes?
O que mais se lembrava era da dor que ferrava suas costas do primeiro passo até hoje! Mas, isto o rei provavelmente não teria o interesse de saber.
A questão é que a viagem fora um tédio. Sobe morro e desce morro constante. Vilazinha aqui, fazendinha lá - e estrada, estrada e estrada. Tanto chão que o irmão já estava no segundo kit de sandálias, de tão gastas ficaram as do começo da jornada.
- Cá está teu leite, irmão – alertou o estalajadeiro, depositando a caneca ruidosamente sobre a mesa.

A Viagem sem Volta - Parte 2

BAM! BAM! BAM!
Três pancadas violentas na porta fizeram o velho saltar da cama.
- Irmão! Irmão! Perdeste a hora?
Fredo coçou os olhos como se quisesse limpar o cérebro e lembrou-se. Pedira para o estalajadeiro acordá-lo caso não descesse para o refeitório até às seis e meia.
BAM! BAM! BAM!
- Já vou, homem! Obrigado! – gritou o irmão, escutando em seguida o dono da taberna descer as escadas.

A Viagem sem Volta - Parte 1

Irmão Fredo abriu os olhos e não acreditou que já era dia. Virou-se na cama, enfiou o rosto no travesseiro e decidiu cochilar mais cinco minutinhos. Estava num sonho tão bom, deitado à beira do lago 12, abraçado entre as irmãs Petra e Judi e com um balde de cerveja preta a sua frente... Ah, o peso e o desprazer da realidade!
Era hora de levantar, mas o mundo que esperasse! Era justo. Afinal, há sete dias o sábio subia e descia sozinho as ladeiras do caminho para Zástraz, a Cidade dos Loucos, seu destino final. Sequer um jumento para carregar as tralhas fazia companhia ao pobre.
Mais cinco minutos na cama e quem sabe corpo e mente não estariam prontos para seguir adiante. Apesar do ritmo acelerado, metade do percurso ainda tinha de ser cumprido e os trechos mais acidentados estavam por vir.
Uma baba grossa já encharcava o travesseiro. Os cabelos brancos e compridos esparramavam-se pelas costas, esquentando a nuca do irmão e aumentando o conforto de ficar deitado. Como era bom ser irresponsável, nem que por apenas exatos 300 segundos!

sexta-feira, maio 27, 2011

Snif!

Outro conto enviado, outro conto rejeitado por outra coletânea - da mesma editora. Snif!
Bom pro Eita Peste!, que tem aumentada sua galeria de obras literárias do mesmo autor... \o/

Amanhã começo a subi-lo aqui. Ele se chama "A Viagem sem Volta" e você está convidado para embarcar!
Até!

quarta-feira, maio 25, 2011

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 16 (Final)

Enquanto isso, a 200 km dali, Zorotisa chacoalhava dentro do ônibus junto com seus dois bichanos e pensava seriamente em deixar a bruxaria para estudar veterinária. Iria comunicar a decisão aos pais - assim que chegasse em casa.  

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 15

- A estagiária não tocou na fórmula! – gritou Cariabuna, um tanto ataboalhada para o seu estilo.
- Foi ela que apanhou os gatos. E os ingredientes fazem parte da fórmula, caso não saiba – retrucou a velha – Se me permite, vou concluir a leitura do rodapé.
Foi o que fez.
- Caso a contratada divulgue, reparta, compartilhe, ou peça ajuda a outrem, de profissão e/ou qualquer natureza que seja, ela instantaneamente perderá a posse sobre o escritório em que trabalha e/ou labuta à contratante, irrevogavelmente.
A ricona respirou profundo, devolveu a folha ao advogado e disse.
- Sendo assim, Cariabuna, esta casa agora é minha. E eu não gosto de bagunça. Caso queira trabalhar para mim, pegue a vassoura e limpe tudo imediatamente. Senão, pegue suas coisas e libere o prédio.
A bruxa ficou com a primeira opção.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 14


Assim que escapou do covil da bruxa, Zorotisa seguiu para o escritório da velha rica. Diferente de Cariabuna, ela prestava atenção nas letrinhas miúdas e tivera acesso ao contrato por meio da própria bruxa, que se gabava da cliente que adquirira.
- Olhe com seus próprios olhos e veja quem é – disse a bruxa no dia em que entregou o papel à aprendiza – Duvido que chegue um dia a este nível. Agora, vá lavar minhas meias.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 13

A bruxa avançou sobre Zorotisa como uma leoa faminta: dentes cerrados e garras assassinas.
- Eu te mato!!! – disse, babando pelos cantos da boca.
A jovem encheu-se de legítimo pânico e recuou a milímetros de ser desfigurada. Ato contínuo, ela apanhou os dois gatos que ainda estavam zanzando pelo chão – entre eles o filhote – e saiu correndo pela casa.
Todavia, a porta da sala que dá para a rua estava trancada.
Não se sabe como, Cariabuna recuperara-se do drible e já estava com os cabelos de Zorotisa nas mãos.
A bruxa, então, começou a bater a cabeça da estagiária violentamente contra a porta. Em seguida, com apenas uma das mãos, apanhou Zorotisa pelo pescoço e levantou-a do chão.
- Você vai morrer!!! Vai morrer agora, desgraçada! Vadiazinha! Morra!
Foi então que o gato maior dependurou-se sobre o rosto da bruxa, cravou as garras o mais fundo possível e arranhou. O urro de dor foi tão grande que uma das cordas vocais de Cariabuna para sempre perdeu a função.
Zorotisa aproveitou a chance e se livrou do estrangulamento. Ela, então, apertou o filhote contra o colo, encontrou a chave sobre a mesa, abriu a porta e fugiu, com o gato herói logo atrás.

terça-feira, maio 24, 2011

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 12

Zorotisa abriu a jaula, mas hesitava em escolher a primeira vítima. Suava frio e tremia. O coração batia tão alto que dava para ouvir. Então, resolveu fechar os olhos e pescou o primeiro que conseguiu apanhar.
Veio um dos mais magros, daqueles esquisitos com pelancas sobrando. Zorotisa ergueu-o pela nuca e o bicho nem ligou de tão aparvalhado que já estava. Quando ela abriu os olhos, lembrou-se de como e onde o capturou. Pobre infeliz!
A estagiária sentiu o estômago embrulhar de tanto nervoso. Mesmo assim, levantou a faca tremelendo em direção ao pescoço do animal. O gato finalmente pressentiu o perigo e começou a chacoalhar-se todo. As patas tentavam arranhar o braço de Cariabuna, que conseguiu desviar.
Acuado, o felino começou a miar alto e chamou a atenção dos outros bichanos na jaula. Todos olhavam quando Zorotisa fez um gesto brusco e atrapalhado e apertou a ponta da faca de tal forma no pescoço do animal que a carne chegou a afundar.
Era só mais um pouco para abrir um rasgo em sua primeira vítima.
Contudo, a aprendiza parou. Não se reconheceu fazendo aquilo.
Quase que involuntariamente, ela deixou a faca e o gato caírem. O felino torceu o corpo e, como todos de sua espécie, caiu de pé fora da jaula. Livre do martírio, o bicho trepou numa mesinha próxima, derrubou as porcarias que havia em cima e fugiu pela janela entreaberta.
Ao ver o gato escapulindo, Zorotisa começou a retirar um a um os outros da jaula, rapidamente. Dois ou três ficaram paralisados, sem saber o que fazer. A maioria, entretanto, disparou em correria pelos quatro cantos da casa, escalando móveis, quebrando talheres, derrubando enfeites, desarrumando as cortinas, arranhando as paredes e escapando pelo menor buraco que fosse.
Desperta do impulso salvador, a estagiária quase desmaiou ao ver Cariabuna em meio à bagunça cravando os olhos fixamente em sua direção.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 11

“Degole todos os gatos.” A frase ficou ressoando na cabeça de Zorotisa, que instintivamente começou a tremer. Mal matava pernilongos e baratas – e agora tinha a vida de 30 animais em suas mãos?
A aprendiza sabia que o feitiço para a empresária rica seria feito com o sangue dos felinos. Contudo, não esperava que seria a responsável por providenciar o material. Na verdade, a princípio sequer acreditava que fosse capaz de capturar a quantia suficiente de gatos. A empolgação ao se dar bem na tarefa, porém, fez com que ela se esquecesse das consequências.
Pensando bem... O que poderia fazer, oras bolas! Cumpria ordens! Se não trouxesse os animais, seria punida por Cariabuna. Uma vez, ficou sabendo, a louca chegou a chicotear uma antiga estagiária que não a obedeceu. Pior ainda: poderia ser expulsa. E aí, viraria bruxa como?
Então, resolveu assumir a bronca. Apertou o cabo da faca na palma da mão, respirou fundo e foi devagar, passo a passo, em direção à jaula.
Alguns bichanos andavam de um lado para o outro. A maioria, entretanto, escorava-se nas grades, sem vontade para nada. Num dos cantos, o filhote era o único que se divertia brincando com a cauda de um dos gatos.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 10

- Até que enfim! – disse Cariabuna ao ver a aprendiza retirar o gato de dentro do saco assim que entrou em casa. Em seguida, tomou o animal das mãos de Zorotisa, ergueu-o pelas pelancas da nuca e disse, quase encostando o próprio nariz ao focinho do bicho.
- Espero que haja sangue suficiente dentro de você, pequeno inútil. Nem que eu tenha que torcê-lo até a última gota!
A bruxa, então, foi para a dispensa, jogou o filhote para dentro da jaula e correu para lavar as mãos na pia da cozinha. Detestava animais. Logo depois, ela abriu a gaveta de talheres e retirou uma faca de churrasco. Testou o corte no próprio dedo, julgou-o excelente e entregou o instrumento para Zorotisa.
- Termine seu serviço – ordenou.
- C-como assim?
- Degole todos os gatos. Ande logo. Estamos atrasadas – disse Cariabuna, a caminho da sala.

sábado, maio 21, 2011

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 9

Faltava apenas um gato para que todos os ingredientes do feitiço estivessem de acordo. Até o momento, Zorotisa havia feito um belo trabalho, acima das próprias expectativas. Tornara-se uma verdadeira caçadora de felinos e até pensava em escrever um método prático para deixar à posteridade.
Da porta da dispensa, ela observava os gatos aprisionados, de todos os tamanhos e cores. A expressão, contudo, era a mesma e geral: abatimento e saudade dos muros, telhados e lixos alheios.
Zorotisa não podia ficar muito tempo por lá. Ela acabava sentindo compaixão dos animais e sua brotante maldade abandonava o peito. Uma bruxa não poderia se dar este luxo. Além disso, faltava um gato para zerar a conta – e o bichano não iria escapar esta noite.
Como era de se esperar, a vizinhança ficara pequena para o sucesso de Zorotisa. Os gatos do pedaço estavam extintos e ela agora ia de ônibus para as missões. Fazia duas noites, porém, que não conseguia apanhar nenhum felino. E, por isso, já começava a perder a confiança.
O cobrador sempre estranhava ver aquela menina branquela, vestida e maquiada toda de preto, atravessar a catraca. Zorotisa sentia este olhar pesado sobre ela e preocupava-se. Não estava sendo discreta ao ponto que o cariabunês gostava. Portanto, daria o melhor de si e não voltaria para casa de mãos vazias.
Logo que desceu no ponto necessário, a estagiária deixou pães molhados na sardinha em cada lixeira que encontrou. Também usaria uma técnica que dera resultado com os gatos 14, 19 e 23, que era imitar “sutilmente” o miado de uma gata no cio, habilidade que só a prática e os ouvidos treinados poderiam desenvolver.
Sentou-se num degrau, esperou, e nada. Dez minutos, e nada. Vinte minutos, e nada. Meia-hora – e tudo na mesma. A bunda começou a doer e ela teve de levantar e sair andando para espantar a raiva.
Mas, que merda!
O que ocorria? Para onde haviam ido os gatos deste mundo? Ou será que a cidade só tinha 29 deles?
Não.
Dez minutos de caminhada à frente e um miado baixinho fez o coração de Zorotisa acelerar. Vinha de uma árvore baixa e por pouco não despencava do galho. Era um filhote. O 30º.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 8

“Nada como a prática”, pensou a aprendiza com um sorriso no canto da boca. E não é que a teoria comprovava-se na hora da ação? Yeah!!!
Logo que encontrou um latão de lixo, Zorotisa abriu uma das latas de sardinha, molhou no pão e colocou a fatia dentro. Em seguida, espalhou o caldinho pelo chão e sentiu o cheiro forte do peixe impregnar o ar. Cruzou os dedos, e se enfiou no escuro, aguardando.
Não deu cinco minutos e um gato apareceu do outro lado da rua. Passo a passo, sinuosamente, ele se aproximou, observando os cantos e levantando o pescoço ao menor barulho.
Porém, o bicho devia estar uma fome violenta e não se segurou. Num pulo, estava sobre a lixeira e, assim que se dobrou para abocanhar a fatia, Zorotisa saiu detrás da árvore e, VUM!, prendeu a boca do saco à boca da lixeira!
No reflexo do susto, o gato tentou saltar para fora, mas já era... Estava ensacado!
Naquele mesmo latão e com a mesma técnica, a bruxinha capturou outros dois felinos. Então, andou mais três quadras e tentou em outro. Apanhou mais dois. E, numa terceira, conseguiu mais um.
Com seis gatos no saco e o braço começando a pesar, Zorotisa respirou fundo e decidiu que era hora de voltar para casa. Não cabia em si de felicidade e, lá no fundo, já se considerava uma pequena gênia.
Contudo, quando soltou a bicharada dentro da jaula, Cariabuna observou a gataria e constatou indignada.
- Nenhum deles é preto??? – e sentou a colher na cabeça de Zorotisa, sem esperar resposta.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 7

Distração. Este era o segredo.
Criar alguma distração parecia ser o recurso perfeito para conseguir apanhar os gatos. São bichos muito ariscos, que precisam estar entretidos em outra tarefa para a gente pelo menos conseguir chegar perto, pensou com seus botões Zorotisa.
Assim, quando a terceira noite de caça foi chegando, ela já começou a preparar um arsenal. Para isso, foi à geladeira e assaltou na surdina algumas sardinhas enlatadas. Também pegou três pães amanhecidos e, claro, um abridor de latas na dispensa.
Lá, no fundo, em uma jaula mal acomodada, estavam os dois bichanos capturados na empreitada passada. Acuados naquele recinto estranho, cada um estava quieto num canto. O amor não rolava sob pressão.
Zorotisa parou na porta e se pegou olhando os animais, com pena. Estavam com aqueles olhos tristes e esbugalhados de gatos abandonados... Ela, então, aproximou-se e, pelo vão das grades, deixou um pedaço de pão molhado no óleo da sardinha. O cheiro da coisa espantou a melancolia dos felinos, que rapidamente engoliram tudo com uma certa algazarra.
O barulho deixou Zorotisa com medo de ser pega onde não devia estar. Assim, ela saiu correndo na ponta dos pés, pegou a mochila sobre a mesa, tacou tudo dentro e caiu na rua. Hora de trabalhar.

terça-feira, maio 17, 2011

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 6

- Só dois??? – gritou Cariabuna, assim que viu a estagiária abrir a porta e, com um sorriso largo, despejar o casal felino no chão da sala. Imediatamente, a colher voou e acertou em cheio a testa de Zorotisa. Outro galo nasceu ao lado do anterior, deixando a pobre com cara de bezerro cujos chifres começam a nascer.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 5

“E agora?”, continuou a pensar Zorotisa.
Ela não fazia a menor ideia de como apanhar o bichano. Afinal, não recebera nenhum treinamento para isso, não conhecia nenhuma técnica e não era das melhores no improviso. Nestas horas de aperto ela sentia falta da família e arrependia-se de ter ido embora em busca do sonho de ser bruxa.
- Olha onde estou! No frio, no sereno, atrás de um gato vadio! – pensou.
O animal, entretanto, não dava a mínima aos problemas existenciais de sua caçadora e resolveu seguir caminho. Zorotisa, que estava recostada em um poste, por sorte não cochilou e foi atrás.
Duas quadras adiante, o gato parou em frente a uma loja de sapatos. Parecia esperar alguém, uma vez que ficou quietinho, sem fuçar em nada. A aprendiza enfiou-se em um canto, ajustou os óculos na cara e desamarrou o saco do cinto.
Alguns minutos se passaram até que, de repente, Zorotisa notou o rabo do bichano ficar alerta. Algo chamava a atenção dele do outro lado da rua. Malandro! Era outro gato... Ou, provavelmente, uma gata.
Preta inteira, dos olhos amarelos e iluminados, uma gata realmente bonita, daquelas que dá vontade de ter de estimação, pensou Zorotisa. Logo depois, sacudiu esta história da cabeça, pois agora deveria se portar como uma profissional.
Os felinos se encontraram no meio da rua e começaram a se esfregar um no outro, como fazem os gatos no cio. A estagiária logo sacou o que estava rolando e ficou de espreita.
Quando ambos se apaixonaram e ele montou sobre ela para a hora do amor, Zorotisa saiu detrás do poste e avançou com o saco na mão. Era agora ou nunca. Independência ou morte!
Mas, vocês sabem como os gatos são escandalosos nestas horas, não? Quando o protótipo de bruxa estava a dois passos do casal, a gata começou a esgoelar como se fosse uma ambulância velha. Zorotisa travou no meio do caminho, sem saber se capturava logo os animais ou se saía correndo para fugir da atenção dos vizinhos.
Escolheu a primeira alternativa e obteve sucesso. Dois coelhos (gatos) em uma cajadada (ensacada) só. Surpresa com o resultado da operação, ela correu para casa. E os gatos descoitados, coitados!, ficaram na saudade.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 4

Cariabuna tinha uma entrega importante para fazer. A cliente, uma velha rica dona de metade da cidade, queria um feitiço para, ora vejam, ter sorte nos negócios e superar a concorrência em uma licitação importante.
Para isso, a bruxa receitou um tônico que levava mel, aguardente, três cachos de uvas amapaenses, manjericão, e seis litros de sangue fresco de gato.
- É um bicho que acerta até quando tropeça e sempre cai de pé – explicou Cariabuna. Fora a receita, ela também indicou dois ex-namorados deputados que poderiam dar uma forcinha, mas isto não vem ao caso.
Todos os itens estavam em promoção no supermercado da esquina, exceto as uvas, que vieram de avião - e os felinos. Assim, estimou a bruxa, seriam necessários uns 30 gatos para a obtenção da matéria-prima. Claro, o trabalho pesado ficaria com a estagiária.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 3

Foi depois de meia-hora que ela dobrou a esquina e viu um vulto correndo se esconder no escuro. Zorotisa estava na segunda noite de caça e não queria decepcionar – ou ganhar outro galo na cabeça.
Dentre os mandamentos pregados por Cariabuna, estava a discrição. A bruxa morava em um bairro hi-society e não queria cair na boca vulgar dos vizinhos.
Por isso, Zorotisa só saía depois da meia-noite e perambulava sempre entre as sombras. Como tinha seis graus de miopia e um fundo de garrafa enfiado na cara, não era nada fácil conseguir notar qualquer troço no meio de todo breu.
Aquela noite, entretanto, parecia de sorte. O vulto era realmente um gato. Pardo, dos olhos amarelos, com um rabo comprido semelhante a um espanador, lá estava ele a quinze metros, fuçando uma lata de lixo.
E agora?

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 2

Moça do interior, sem muito jeito para a vida, há dois anos Zorotisa chegou de mala debaixo do braço, sem a companhia de ninguém. Conseguira o estágio por intermédio de um amigo, de um amigo, de um amigo do tio (ou coisa parecida) que fora namorado de Cariabuna.
Naquela época, a bruxa dos cabelos longos, decotes vastos, cintura fina e sobrancelhas exageradamente arcadas não fazia sucesso apenas com os homens e já ostentava uma variada pasta de clientes e serviços prestados às mais influentes ramificações do mal. Isto antes de completar 350 anos, raríssimo na profissão.
Por isso, Zorotisa mal acreditou quando a poderosa em pessoa abriu as portas do covil. Os olhos brilharam e um sorriso nervoso se desprendeu dos lábios. Era o sonho de uma vida estar ali, de frente àquela personalidade.
- Ande logo – foram as primeiras palavras de recepção. E o sonho só começava a virar pesadelo.

A Caçadora de Sete Vidas - Parte 1

“Nada como a prática”, pensou Zorotisa, com um sorriso no canto da boca. Pela terceira noite seguida, ela repetia o ritual de percorrer a vizinhança em busca de gatos perdidos – pretos, de preferência - e começava de ter sucesso. Três já se arranhavam dentro do saco antes da meia-noite.
Na primeira noite, não apanhou nenhum. Chegou até a encontrar um bichano gordo e do pelo azul de tão lustroso, mas o desgraçado foi valente. Acuado em um canto, o felino encolheu-se todo e mostrou os dentes para espantar a intrusa.
Zorotisa não ligou e foi para cima. Mas, as juntas enferrujadas retardaram o movimento, o gato cravou as unhas no rosto da aprendiza e fugiu miando pelo bairro. Filho da %&$!
Restou à perdedora voltar cabisbaixa para casa, arrastando o saco murcho pelo chão e prevendo o que ocorreria assim que abrisse a porta.
Sem erro. Ao ver Zorotisa girar a maçaneta e entrar de mãos abanando, Cariabuna parou imediatamente de mexer o caldeirão. Olhos injetados de sangue em direção da novata, que bambeou as pernas.
- Nenhum? – foi a pergunta simples e arrasadora.
Zo-zorotisa te-tentou dizer alguma co-co-coisa, mas nada veio. Sem controle, ela abriu os braços e encolheu o pescoço para dentro dos ombros. O saco pendeu vazio no ar.
Não houve tempo sequer de piscar. Quando voltou a si, Zorotisa já sentia o meio da testa latejando - e um galo indiscreto abrindo espaço entre a franja. Diante da resposta da jovem, a fúria tomara conta de Cariabuna, que arremessou contra ela a colher de pau ensopada de feitiço.
- Incompetente! Parva, lerda, orelha de jumento! – esbravejou a chefe. Se não serve para apanhar gatos, serve pra lavar banheiro... Agora!
Zorotisa engoliu o choro, baixou a cabeça e foi cumprir a ordem. A semana não começava bem.

Siga por conta e risco

Galera, do próximo post em diante, vou colocar um conto que mandei para uma coletânea, mas não foi aprovado. Chama-se A Caçadora de Sete Vidas. Para quem não gosta de conto ou não tem paciência para ler isto em blog, mil perdões (também não tenho muita). As postagens - e consequentemente a leitura - acompanham o sentido de qualquer blog do universo: as do início ficarão mais abaixo, soterradas pelas novatas. Assim, os últimos serão os primeiros - e viva a democracia da net!
Boa leitura e deixe seu comentário.